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4 de jan de 2011

Filmes de Zumbi e Crítica Social

Filmes de Zumbi e Crítica Social

Nildo Viana

Desde o lançamento do filme "A Noite dos Mortos-Vivos", em 1968, de George Romero, os filmes de zumbis emergiram e conquistaram público e reconhecimento. Um filme feito com baixo orçamento e condições precárias, acabou gerando um sucesso que abriu as portas para o cineasta que, doravante, passou a produzir outras obras interessantes, embora sem grande sucesso. A retomada da fórmula em "A Madrugada dos Mortos" (no Brasil foi intitulado "O Despertar dos Mortos"), em 1978, foi uma sequência que inspirou remakes e outros filmes de zumbis. Em 1985, reapareceu com "O Dia dos Mortos" encerrando o que alguns chamam de "trilogia dos zumbis". Porém, o melhor dos seus filmes foi "Terra dos Mortos", de 2005, e foi seguido por "Diário dos Mortos" e por "Sobrevivência dos Mortos", de 2007 e 2009, respectivamente.



Os filmes de George Romero inovaram na criação da figura do zumbi não como na tradição da cultura popular do Caribe, relacionado ao sobrenatural e ao vodu, que gerou alguns filmes desde a década de 1930. Os zumbis de George Romero nada tinham de concepção religiosa do mundo e sua origem se relaciona com o desenvolvimento científico-tecnológico. Inspirado na obra literária "Eu Sou a Lenda", ele cria um subgênero de filmes de terror, que teve antecessores inspirados na mesma obra e que não conseguiram gerar novas criações com seus filmes. Daí ele foi inspirador de uma nova safra de filmes de terror. Porém, outro aspecto importante de sua produção é o caráter de crítica social presente nos seus filmes, nos quais sempre aparece a bandeira dos Estados Unidos, lar preferencial das aventuras de zumbis, expressão metafórica de um país de mortos-vivos. Os filmes de zumbis que vieram após George Romero, bem ou mal, com raras exceções, mantiveram esse aspecto crítico, seja apenas na explicação da origem dos zumbis (radiação, experiências biológicas militares ou privadas) ou de forma mais profunda. O mais famoso é Resident Evil, que remete a origem dos zumbis à experiências da Umbrella, empresa capitalista, que provoca a devastação planetária pelos zumbis, tema recorrente nos filmes de Romero. Também Extermínio, Candidato Maldito, e os remakes dos filmes de Romero mantém o caráter crítico. Até filmes de menor qualidade e que de certa forma deformam a ideia original de zumbi, como "A Volta dos Mortos", acaba mostrando a origem dos zumbis ligados a experiências militares e empresas capitalistas, mas a comédia "teen" assume papel importante e os zumbis começam a falar ("cérebro") e comer apenas cérebros.

Por fim, os remakes de "A Madrugada dos Mortos" e "Dia dos Mortos" trazem uma versão mais holywoodiana, com mais ação e atrativos do modelo de Holywood. As paródias também não deixam de existir e mostrar que os zumbis podem ser motivo de sátira, como "Todo Mundo Quase Morto". Além das sátiras, a mistura de zumbi e humor também aparece em vários filmes, como "Zumbilândia", "Planeta Terror" e diversos outros. O destaque é para "As Strippers Zumbi", no qual a comédia e a crítica social se misturam com zumbis strippers, e com direito a dizer o nome dos criadores da situação que geram os zumbis, o presidente George Bush e seu vice, Arnold Schwarzenegger. A mistura de filme de zumbi com faroeste, inspirado em Sérgio Leone, pode ser vista em The Quick, o Caçador de Zumbis, apesar dos limites formais e de conteúdo do mesmo. Até uma Série de TV, "The Walking Dead", exibida pela Fox (TV a Cabo) foi produzida. O documentário "A Verdade sobre os Zumbis" especula sobre a possibilidade de um real aparecimento de zumbis e seu efeito catastrófico, com depoimento de estudiosos e cientistas. Um vírus, como ocorre em vários filmes, poderia proliferar e destruir a humanidade, ou seja, a ficção, segundo o documentário, poderia se tornar, "novamente", realidade (disponível no youtube em quatro partes: http://www.youtube.com/watch?v=ztG60UuPP8Y).



Porém, a relação entre filmes de zumbi e crítica social são mais explícitas nas obras de George Romero, em especial em "A Terra dos Mortos". Os sobreviventes estão organizados em torno de uma espécie de cidade comandada por capitalistas que ficam na região nobre da mesma, cercados por pobreza na periferia, a zona da prostituição, jogos e drogas (o circo sem pão) e por soldados, mercenários e outros na fronteira, protegendo o local dos zumbis. A entrada dos zumbis, quando estes finalmente invadem a cidade, mostra a natureza dos capitalistas e dos mercenários, que são destruídos devido sua prioridade dada ao vil metal, o dinheiro. Já "Despertar dos Mortos" mostra o consumismo e fetichismo num filme que passa num Shopping Center.

Obviamente que o caráter crítico destes e outros filmes de zumbis passa desapercebido por grande parte dos assistentes, bem como muitos apenas falam do caráter crítico por ter ouvido dizer mas não sabe identificar onde estaria a crítica e qual seria. Também, os cinéfilos e outros entram em discussões sobre qual filme é ou não de zumbi, fazem uma tipologia que distingue entre filmes de zumbis nos quais estes seriam lentos ou rápidos, entre outras discussões superficiais e classificatórias.
O caráter crítico dos filmes de zumbi estão na própria ideia de zumbi, um morto-vivo. Como um dos personagens de "Terra dos Mortos" coloca, eles são "como nós". O zumbi é uma metáfora para a vida moderna e a meia-vida que os indivíduos são submetidos na sociedade capitalista. Os mortos-vivos são os indivíduos da sociedade capitalista, que não são guiados por sua razão e sim por uma ânsia devoradora que os torna marionetes, joguetes de suas pseudonecessidades fabricadas por outros. A sociedade capitalista é uma sociedade de zumbis. Os filmes de zumbis apenas mostram isso e quando fazem isso intencionalmente, como os filmes de George Romero, apresenta uma crítica social e demonstra que o verdadeiro terror está em nosso cotidiano na sociedade repressiva-coercitiva.


6 comentários:

Anônimo disse...

Muio interessante... confesso que assisti alguns poucos filmes de zumbi e não tinha atentado para isso... tendo oportunidade irei olhar isso. Muito boa dica e análise!

José Celso Cunha - sociólogo.

Alana S. disse...

Ótima análise, coincidentemente assisti "Zumbilândia" há pouco tempo, e posso dizer que foi um dos melhores filmes "de zumbi" que já vi. Claro que não conheço muitos, mas assisti "A Noite dos Mortos-Vivos" e achei muito bom também! Nunca havia parado pra refletir a fundo sobre as sátira altamente crítica envolvendo zumbis e a humanidade, mas sempre pensei como o protagonista de Zumbilândia diz, certa altura do filme: "minha vida inteira conheci pessoas que se pareciam com zumbis mesmo antes de serem zumbis".

Nildo Viana disse...

Alana e José Celso,

Pois é, os filmes de zumbis, principalmente os de Romero, mas vários outros, possuem um forte teor crítico. Inclusive é um bom elemento para incentivar reflexões sobre nossa sociedade.

Abraços,

Nildo.

Garota Psykóze disse...

Olá. Sou estudante de Psicologia e estou escrevendo um artigo sobre esse tema, relatando a experiência de ter organizado a primeira Zombie Walk da minha cidade e enfrentado preconceito. E também estou escrevendo outro, sobre Psicanálise e Terror (vi seu outro post sobre o tema neste blog).
Parabéns pelos textos! Se eu publicar online esses artigos, envio os links.
Abraço

Nildo Viana disse...

Olá, grato. Realmente os "zumbis" podem despertar preconceito, seja por medo, seja por incompreensão ou pelas duas coisas juntas. Mas há também aqueles que possuem dificuldade de separar ficção de realidade e reaproximar ambos, numa outra perspectiva, a da interpretação. Seu trabalho é bem interessante, fico aguardando. Abraços.

Raique Thrasher disse...

O melhor de seus filmes foi Terra dos Mortos???

NUNCA SERÁ!

Terra dos Mortos tem atores e efeitos, mas em questão de relevância, roteiro e conteúdo a trilogia original do Romero é imbatível!