Rádio Germinal

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13 de abr de 2009

O Fim dos Tempos ou a Revolta da Natureza?

Fim dos Tempos, M. Night Shyamalam (EUA, 2008).







Por Nildo Viana













O filme "Fim dos Tempos", M. Night Shyamalan (EUA, 2008) dá seqüência ao processo de denúncia dos perigos pelos quais passa a humanidade presente em outros filmes anteriores dirigidos por este cineasta, tal como A Dama na Agua (EUA, 2006). Tal como no filme anterior citado, um certo esoterismo na trama, na qual o mistério não é resolvido satisfatoriamente, que aponta para uma catástrofe, uma situação na qual os indivíduos são atingidos por uma força misteriosa, possivelmente uma toxina, que atinge as pessoas fazendo-as perder o "instinto de sobrevivência", o que leva ao suicídio em massa.


Quem espera um grande "filme-catástrofe" certamente se decepciona. Quem conhece os demais filmes do diretor sabe que o conteúdo não será muito complexo e profundo, nem a trama em si. Também irá saber que ele irá aparecer em alguma cena do filme, tal como é seu costume e parece a mesma coisa que as "aparições" de Stan Lee nos filmes com super-heróis da Marvel Comics. No entanto, o filme tem seus méritos, tal como deméritos, tanto no conteúdo quanto na forma. Os personagens são pouco envolventes por serem pouco profundos e às vezes beirando o patético. De qualquer forma, o filme tematiza a revolta da natureza contra os seres humanos, o que não é novidade na contemporaneidade e pode ser visto, por exemplo, nos quadrinhos de super-heróis "The Autority", embora este mais atualizado e politizado.
O que se nota no filme é a tematização da revolta da natureza provocada pela ação humana e por isso se volta contra ela. A toxina responsável pela perda da vontade de viver é uma substância produzida pelas plantas em sinal de defesa contra a ameaça humana. Assim, a força misteriosa que provoca a morte de milhares de pessoas é a "natureza", ou melhor, parte dela, para ser mais exato, as plantas. O local mais atingido é justamente onde se faz experiências com armas nucleares.
Sem dúvida, retirando o esoterismo presente, que demonstra que o roteirista deixa a desejar em matéria de compreensão do que está por trás da degradação ambiental e dos atuais problemas sociais que a provoca, a intenção é boa, já que a idéia é denunciar as conseqüências disto e a possibilidade de evitar "o acontecimento" (título original do fime). Porém, as limitações formais e a falta de profundidade de conteúdo, além do esoterismo, prejudicam o filme. A idéia apresentada pelo aluno no início, segundo a qual há coisas inexplicáveis na natureza, o que é repetido por um cientista no final do filme. O problema mais grave com a mensagem está em não perceber que o esotérico, o misterioso, realmente é ameaçador, mas se fica nesse nível "inexplicável", reforça a ignorância e o imobilismo, pois medo e ignorância são imobilizadores, e a questão ambiental precisa ser mobilizadora.

10 de abr de 2009

CINEMA E INTERPRETAÇÃO


"Não só reconhecemos a possibilidade de uma interpretação correta como da que busca fornecer um significado adjudicado ao filme, o que é possível a partir da percepção de seu processo social de produção e de que ele reproduz a realidade".





Por Nildo Viana

O problema das interpretações é um dos mais polêmicos tanto na esfera do pensamento científico e filosófico quanto no campo da arte. As diversas interpretações de um filme acabam colocando a mesma questão para o cinema. Deixando de lado a questão da interpretação no campo do pensamento científico e filosófico, iremos nos limitar a trabalhar esta questão na esfera artística e do cinema.

E. D. Hirsch Jr. forneceu uma solução para esta questão que consideramos a mais proveitosa. Em primeiro lugar, Hirsch refutou o que denominou “relativismo dogmático” e defendeu a possibilidade de uma interpretação correta da obra de arte. Esta interpretação correta ocorreria via descoberta do sentido original do autor. Assim, o objetivo do intérprete é descobrir o significado original do autor, e, para isso, é necessário um trabalho erudito que deve analisar o gênero, o repertório lingüístico do autor, o contexto histórico da produção, etc. A significação original e intencional do autor se diferencia dos diversos significados que os intérpretes deduzem da obra. O foco da análise de Hirsch é a literatura, mas julgamos ser possível partir desta contribuição para discutirmos a questão da interpretação do filme.
Um filme é uma produção coletiva, na qual não se pode atribuir a autoria a apenas um indivíduo, como pretendiam os adeptos da “política dos autores” (Truffaut, Chabrond, Godard, etc.), e sim a diversos autores. É claro que mesmo havendo diversos autores, e estes nem sempre com os mesmos valores, posições políticas, idéias, etc., eles devem possuir algo em comum, o que forma uma equipe de produção. Também podemos dizer que todo filme, mesmo o mais banal e comercial, apresenta uma mensagem, independentemente desta ser, também, banal ou superficial. A elaboração da mensagem é realizada pelo criador do roteiro e pelas alterações que ocorrem durante o processo de produção (diretor, produtor, etc.). Assim, o significado original é de mais difícil percepção, já que podem co-existir distintos significados.
Porém, é possível, embora seja mais difícil, descobrir a significação original. No entanto, independentemente disto, é preciso entender que existe a possibilidade de existência de diversos significados adjudicados (atribuídos) pelos diversos intérpretes. O problema reside em confundir significado adjudicado e significado original. O significado adjudicado pode ser extremamente útil para a análise e interpretação dos filmes, devido às dificuldades já aludidas. O filme realiza uma reprodução da realidade e, por isso, independentemente da intenção original da equipe de produção, ele tem como referencial esta realidade que é reproduzida e, sendo assim, um significado adjudicado explícito (quando fica claro a intenção do intérprete de ir além do significado original) pode tornar-se um útil instrumento de análise.
A reprodução fílmica da realidade é realizada de forma muitas vezes inintencional e pode ser recuperada por uma significação adjudicada explícita do intérprete. Um exemplo pode esclarecer isto. O diretor Peter Weir é famoso pelo filme A Sociedade dos Poetas Mortos. Este filme deixa explícito uma crítica ao processo repressivo no sistema educacional tradicional. Neste caso, o significado original do filme possui uma percepção mais fácil. No entanto, outro filme do mesmo diretor, O Show de Truman, O Show da Vida, apresenta uma dificuldade muito maior de interpretação. A princípio trata-se de uma crítica ao reality show, tal como coloca a maior parte das interpretações. Porém, pode ser interpretado também como uma crítica à sociedade moderna, na qual os indivíduos são marionetes dos sistemas de manipulação. Porém, esta última interpretação seria difícil sem toda uma análise da produção do filme (em seu favor teria o diretor e seu filme anterior, mas contra teria nenhuma passagem do filme que coloque isto explícito), mas seria fácil enquanto significado adjudicado, isto é, uma interpretação sobre como o filme realiza uma reprodução da realidade, independentemente da intencionalidade da equipe de produção. Desta forma, não só reconhecemos a possibilidade de uma interpretação correta, desde que fundada em um extenso trabalho de pesquisa, como da interpretação que busca fornecer um significado adjudicado ao filme, o que é possível a partir da percepção de seu processo social de produção e de que ele reproduz a realidade.

Nildo Viana é sociologo.
Texto publicado originalmente no Jornal Opção.
Disponível em:

1 de abr de 2009

A Socialização no Cinema


Fotograma de "Nell"

 A Socialização no Cinema

Nildo Viana

Muitos debates são realizados tendo em vista a utilidade do cinema no processo educacional, principalmente como recurso didático-pedagógico. No entanto, não se discute com a mesma intensidade a questão da educação no cinema, isto é, a reprodução fílmica da educação. 


Esta questão pode ser vista sob duas formas diferentes, uma sob o prisma de como o cinema retrata o processo de educação formal, a educação escolar; outra sob o prisma mais amplo de como o cinema retrata o processo de socialização, a educação não formal. É a este segundo caso que dedicaremos o presente texto. 


Desde os filmes sobre “meninos lobos” e Tarzan, passando por O Enigma de Kaspar Hauser, Nell, entre outros, temos esta temática como recorrente. Pode o ser humano ser socializado sem relações sociais com outros seres humanos? A resposta é óbvia: não. 



É isto que se pode ver no cinema? Nem sempre. Tarzan, por exemplo, possui o domínio da linguagem e carrega outros atributos, que só são possíveis através da socialização, sem ter passado por ela. O desenvolvimento da fala só é possível através de um longo processo de prática que tem sua formação e sentido através das relações sociais. O treino na fala desde a infância promove uma habilidade que dificilmente alguém conseguiria adquirir a partir de certa idade. Claro que Tarzan é uma ficção. 



O Garoto Selvagem, de François Truffaut é baseado em fatos reais, bem como O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog. Embora seja possível questionar a veracidade dos fatos que deram base aos dois filmes, é possível dizer que o filme de Truffaut apresenta uma visão realista da criança que não passa pelo processo de socialização e sua concretização em um período posterior à infância e tendo por base um passado marcado pela falta de socialização e relações sociais, criando uma quase impossibilidade de reverter a formação inicial. 



O filme de Werner Herzog já aponta para as dificuldades de um indivíduo criado isoladamente se adequar à vida social depois de adulto. O filme Nell, dirigido por Michael Apted, apresenta uma mulher que viveu parte de sua vida isolada e o passado sendo a única ponte entre ela e as pessoas que a contactaram, buscando resgatar os elementos de socialização anteriores para reintegrá-la na sociedade. 



Já em Um Homem Chamado Cavalo, de Elliot Silverstein, o que se mostra não é um processo de socialização e sim a dificuldade de quem possuiu um determinado tipo de socialização se adequar a outro, o que é bem mais fácil do que os casos anteriores, já que existe uma base social e lingüística em ambos os casos. 



O que todos estes filmes mostram é que a socialização é um processo de humanização e tal processo é fundamental para o ser humano. A grande questão é qual socialização, ligada a que tipo de relações sociais, é realizada. Em Um Homem Chamado Cavalo temos esta discussão iniciada, mostrando os tipos diferenciados de socialização. 



Na sociedade moderna, a socialização serve para formar indivíduos adequados a ela e isto ocorre via família, comunidade, etc. Tal indivíduo irá viver em relações sociais marcadas pela alienação. A socialização, neste caso, é realizada principalmente via repressão e coerção. Assim, a socialização passa a ser simultaneamente um processo de humanização e desumanização. A escola é uma outra instância de socialização e reproduz esta socialização extra-escolar, do qual trataremos em outra oportunidade.



Artigo publicado originalmente no Jornal A Página da Educação, para acessar o texto original, clique aqui.