10/01/2011

"Escritores da Liberdade" ou liberdade dos escritores?


"Escritores da Liberdade" ou liberdade dos escritores?

Nildo Viana

O filme Escritores da Liberdade (Richard L, EUA, 2007) é, a princípio, apenas mais um filme norte-americano sobre educação, no qual o mestre dedica sua vida e consegue reverter o quadro caótico da situação escolar existente. Claro que existem filmes diferentes, mas quase todos filmes norte-americanos que abordam a questão escolar no caso das classes desprivilegiadas, desde Sementes de Violência (Richard Brooks, EUA, 1955), passando por Ao Mestre com Carinho (James Clavell, EUA, 1965), entre outros, até chegar ao mais recentes, possuem elementos narrativos semelhantes e repetitivo: O quadro social pré-estabelecido (uma situação escolar caótica, estudantes pobres e marginalizados, conflitos raciais, étnicos e outros, administração escolar pouco envolvida com mudanças e alteração da situação) é rompido com a chegada de um professor abnegado, cujo sentido da vida é a luta pela alteração deste quadro, mesmo custando conflitos familiares, divórcio, etc., e através de uma prática diferenciada junto aos alunos e sem apoio da instituição, consegue resultados favoráveis e realizar a mudança, terminado, como não poderia deixar de ser, em um hapy end holiwoodiano.







O messianismo pedagógico é o ponto forte e como outros filmes semelhantes, este também é baseado em "fatos reais". No entanto, a arte imita a vida de forma muito imperfeita, sendo mais manifestação de concepções, valores, sentimentos, etc., do que retrato fiel da realidade. Este é o caso de Escritores da Liberdade. A professora consegue reverter o quadro através de um forte sacrifício pessoal (teve que trabalhar em outros dois empregos para ter dinheiro para comprar livros e cadernos para os alunos, divórcio, etc.) e isso só é possível se for o sentido da vida para tal professor. Obviamente que a dedicação da professora é louvável, bem como sua ação e os resultados individuais conseguidos. Porém, isso não serve de modelo e de inspiração, não só por causa dos valores, concepções, sentimentos por detrás da prática da referida professora (e do filme), mas também porque os resultados atingem apenas determinadas pessoas, pois para se concretizar em grande escala não só seria necessário outras professoras abnegadas e que fazem da prática educacional o sentido da sua vida, como também ter apoio institucional, políticas educacionais estatais, etc. Nem todos dispostos ao mesmo sacrifício (por exemplo, trabalhar em dois empregos para comprar materiais para alunos, pois é necessário, não só estar disposto a isto como também conseguir tal emprego e não se pode abstrair que a referida professora no filme é oriunda das classes privilegiadas - possuindo acesso a determinado "capital cultural", como diria Bourdieu, além do vil metal - e tem apoio do pai, um juiz, que pode, por exemplo, pagar jantar para os alunos devido seus altos rendimentos). O caso é ainda mais difícil em países como o Brasil, onde o salário do professor é insuficiente para ele sobreviver e além disso não possui recursos, condições e incentivo para formação/qualificação, etc.

Os resultados alcançados, na situação extraordinária apresentada pelo filme é o benefício de apenas uma turma, na qual alunos carentes e que mal terminariam o curso (equivalente ao ensino médio no Brasil) e chegam até a universidade. As outras turmas, as outras escolas, ou seja, milhões de outros, não terão a mesma oportunidade. Logo, não é receita aplicável ao sistema de ensino em sua totalidade. O problema não está na experiência em si e sim em tomá-lo como modelo, o que seria irrealista. Além disso, seus resultados são modestos, atingindo um número limitado de alunos, e que tem por detrás de si determinados ideologemas e valores, entre os quais o messianismo pedagógico, uma concepção individualista de intervenção (a da professora) e da solução de problemas (dos alunos), uma politização limitada e que não ultrapassa o nível da consciência burguesa e não aponta para a transformação social.

Assim, os "escritores da liberdade", escrevem sem amarras, mas também sem uma liberdade autêntica. Estão "livres de" mas não "livres para" (Bloch, Fromm). São indivíduos que são formados socialmente nas classes desprivilegiadas, vivendo em condições de vida precárias e perpassada por diversos conflitos (raciais, étnicos, de classe, etc.), um mundo de violência e criminalidade, e a liberdade que lhes foi oferecida foi a de escrever sobre seu cotidiano (e não entendê-lo, explicá-lo, ver a possiblidade de transformá-lo não apenas em casos individuais ou de um grupo, como se fosse uma "família", sempre excludente dos demais) e cujo conteúdo, no fundo, era a cultura burguesa, que pode ser útil para mostrar o perigo da intolerância e preconceito, mas incapaz de mostrar suas determinações, sua razão de ser, sua base social, que, mesmo um pequeno grupo por via meramente educacional se transforma, se mantém por outros milhões não terem a mesma oportunidade. Museu, restaurante, ascensão social, uma bela viagem do mundo lumpemproletário ao mundo das classes auxiliares da burguesia. Essa é a viagem do filme, daí seus limites, que são os limites intransponíveis da consciência burguesa. Mais uma vez: "ao mestre com carinho". E mais uma vez a afirmação de Marx: "quem educa o educador?" e quem precisa de mestre é porque ainda não conquistou a liberdade. Logo, os escritores da liberdade precisariam de liberdade para escrever e isso não se faz numa sala de aula ou com filantropia e sim na luta, dentro e fora da sala, com ou sem mestre, mas quando atinge um determinado grau, sem mestre e sem carinho pelo mestre, mas sim compartilhamento da luta por seres humanos iguais, sem sentimentos constituídos por relações hierárquicas e por sentimentos hierarquizados, mas sim sentimentos recíprocos por relações humanizadas, companheiros de luta.

9 comentários:

Kaithy disse...

Olá Nildo, gostei muito dessa reflexão acerca do filme "Escritores da liberdade". Extremamente tendencioso esse princípio messiânico ao qual o filme aponta. Mais uma vez as pessoas assistem a um filme como este e saem da sala de cinema pensando que podem fazer toda a diferença na mudança desse mundo. É claro que a participação de todos é fundamental, o que tende ao fracasso é o fato de ser um sujeito isolado no estilo "super-homem" alcançando uma façanha como essa. Ainda pior que isso é a avaliação individualista do fracasso, se o "sujeito tudo pode", dentro dessa concepção ideológica, a ausência de êxito é de responsabilidade apenas desse sujeito. Perversidade pura!!! Por isso, a luta precisa continuar... Um abraço.

Nildo Viana disse...

Kaithy, tem razão, e os filmes sobre educação são, em sua grande maioria, reprodutores deste ideologema. Abraços!

joão disse...

>>Nildo, seu comentário a respeito do filme é muito original e sensato. O cinema americano, uma verdadeira indústria do sonho e entretenimento mundial, ainda possui um roteiro alienante em relação à educação. São filmes, sim, que apelam para um sentimentalismo, um ideário de professor, escola e educação que parte para o extremo da conformação pessoal e social. É claro que o cinema - através dos seus interesses econômicos - não tem o interesse de questionar o establishment. Afinal, questionar é perigoso dentro de uma cultura positivista. Estou certo? Apenas uma provocação. Um abraço.

Nildo Viana disse...

Prezado João,

Agradeço o comentário. Sem dúvida, vc tem razão, o capital cinematográfico não tem o interesse em questionar o status quo. Questionar pode ser perigoso, dependendo do tipo de questionamento. Porém, não devemos ter uma concepção determinista do capital cinematográfico, ele não vive de reprodução das ideias dominantes ou qualquer outro. O capital cinematográfico é "capital", ou seja, uma empresa capitalista que visa, antes de tudo, o lucro. Ao trabalhar com produção mercantil de cultura, busca adequar essa aos seus interesses, mas se der lucro, pode apresentar o seu contrário. Tratei disso no livro A Concepção Materialista da História do Cinema, e por isso existem os filmes como este que segue a linha básica dominante, mas tem filmes alternativos, como Sociedade dos Poetas Mortos e Escola de Rock. Ou seja, o filme é um produto cultural que sofre múltiplas determinações e por isso pode veicular coisas que entram em contradição com o capital cinematográfico, de forma mais ou menos radical, com ambiguidades ou não, etc. Abraços!

amanda disse...

oeeeeeeee amei esse filme ele é d+bys amanda

amanda disse...

@hotmail.comoieee eu assisti esse filme na escola na aula de portugues pra gente fazer uma redação sobre o bullying,e esse filme é d+ e interessante eu adorei e quero assisti de novo.by amanda

Anônimo disse...

eu gostei do filme fala do que acontece em sala de aula na verdade isso e um fato por que nesse filme ela tenta muda a convivência entre os aluno como faz os professores.

Anônimo disse...

Sou professora trabalhei com o filme e meus alunos me chamam de Ale . Nao é uma utopia a educaçao, nao é alienante é real! Somente quem vive a educaçao a conhece! Fiz projetos baseados no filme resgatei amizades perdidas, sonhos perdidos, imagens de educandos que nao mais existiam portanto nem todo filme é alienante logo que esse é baseado em fatos reais. Vale a pena muito pesquisar melhor e viver a educaçao dos nossos alunos para assim conhecer um filme como esse.

Nildo Viana disse...

Ale,

Não afirmei em nenhum lugar que "todo filme é alienante", aliás, o conceito de alienação com o qual trabalho - e não uso para analisar filmes - remete a relação social e não à consciência. Sobre a questão de ser "real", "fatos", essa é uma perspectiva empiricista, os fatos são selecionados, interpretados, etc. e o mero "fato" de reproduzir algo que ocorreu - obviamente não da forma exata como ocorreu... - não lhe dá valor. O problema é justamente a pessao se identificar com sua profissão, com sua prática, aí perde o senso crítico e seus valores e concepções passa a ser uma apologia de algo que é problemático e assim não é problematizado. O messianismo pedagógico é justamente produto da especialização e desse processo, que cria uma cegueira e um salvacionismo educacional. Ler com mais rigor é bom para evitar equívocos e para conhecer um filme como esse não é a "experiência pura" que é o caminho, pois qualquer adesão acrítica ao que se vive, ficar na imanência, expressa a incompreensão da própria prática e de suas consequencias. A reflexão crítica é fundamental e por isso é necessário romper com o empiricismo e o praticismo.