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31 de jul de 2017

Para Compreender as Produções Cinematográficas


PARA COMPREENDER AS PRODUÇÕES CINEMATOGRÁFICAS

Jean Isidio dos Santos

As produções bibliográficas e as análises no campo da historiografia cinematográfica de maneira geral apresentam inúmeras contradições, superficialidades e incoerências. As inúmeras obras específicas sobre o cinema apresentam problemas conceituais e teórico-metodológicos e por isso não abarcam a realidade concreta, pois muitas vezes as análises são descontextualizadas, sendo alheias ao momento histórico e realidade social. Estas análises simplistas partem de uma visão de mundo limitada, pois procuram analisar a realidade social de forma fragmentada.
No interior do campo de estudo das Ciências Humanas, existe uma limitação conservadora que dá pouca importância à contribuição histórico-social das imagens. Este fato explica-se pelo pouco avanço das análises críticas e pelo limitado e inadequado tratamento metodológico no campo cinematográfico. Em outras palavras, as diversas obras bibliográficas que se dedicaram a estudar o cinema não procuraram romper com o superficialismo, com a linguagem técnica, com a análise anacrônica e a-histórica. Neste sentido, o cinema foi, em muitos momentos, compreendido como uma criação artística individual tal como defenderam diversos cineastas da historiografia cinematográfica, ou da chamada política dos autores, dentre eles, Truffaut, Chabrond, Godard.
Mas como analisar o cinema? Como romper com o tratamento superficial e limitado? De que forma a concepção materialista da história possibilita a superação da historiografia ideológica cinematográfica desvinculada da realidade social? Qual é o papel da crítica social com relação à historiografia cinematográfica tradicional?
Estas e outras questões instigantes de extrema relevância são fatores que inquietarão o leitor no decorrer deste livro. Este não é um livro qualquer, é uma obra diferenciada, pois a perspectiva analítica do autor procura romper e ir além das limitações existentes na historiografia tradicional.
A abordagem marxista do cinema é a o ponto de partida do autor. Nildo Viana utiliza o materialismo histórico para analisar a realidade social de forma totalizante e não de forma fragmentária comumente utilizada na historiografia tradicional. Uma questão de extrema relevância nesta obra é a perspectiva crítica do autor com relação à influência da concepção marxista-leninista em inúmeras teses sobre a obra de arte. Os pseudomarxistas partiram da teoria do reflexo de Lênin para conceberem as suas ideologias cinematográficas, tal como é o caso, por exemplo, de diversos cineastas russos: Eisenstein, Vertov, dentre outros.
Para o autor, “as ideologias cinematográficas nascem com a própria origem do cinema”. Uma vez que o cinema se desenvolve tecnologicamente, emerge do seu interior diversas teses tecnicistas, metódicas e formalistas, que são produzidas pelos agentes envolvidos no processo da produção cinematográfica.
Mas quem são estes agentes que elaboram o discurso ideológico “competente” da análise cinematográfica? Para Nildo Viana “são os agentes envolvidos no processo de produção e reprodução de determinada forma artística, que criam o valor da obra de arte...”. Além do discurso competente materializado na linguagem tecnicista e elitista, os ideólogos do cinema se auto-intitulam como pseudo-intelectuais pertencentes a um universo intelectual restrito e seleto para poucos membros que dominam a linguagem técnica e teórica da cinematografia. Neste sentido, os ideólogos partem de uma linguagem elitista, egoística, reforçando e criando uma separação preconceituosa entre aqueles que são os detentores do conhecimento cinematográfico e os “ignorantes” não entendidos.
A questão do fetichismo no cinema é abordada de forma inovadora nesta obra. A perspectiva crítica do autor visa desmistificar e apontar as limitações teórico-metodológicas da ideologia fetichista criada em torno da produção cinematográfica pelos ideólogos conservadores da historiografia cinematográfica tradicional. O fetichismo tem diversas conseqüências, dentre elas a idolatria criada em torno da produção cinematográfica, que coloca o cinema num patamar elevado e grandioso, bem como a reprodução dos valores dominantes que são produzidos pelos agentes de produção. Ambos aspectos são analisados de forma coerente nesta obra.
Uma produção fílmica é uma produção social e coletiva, portanto, esta produção não está dissociada das relações sociais. O filme reproduz valores e ideologemas que atingirão de forma direta ou indireta o público que o assiste. Já que a produção fílmica é uma produção coletiva, ela é marcada pela luta de classes, pelos antagonismos divergentes no momento da produção do filme, pois os agentes que o produzem possuem perspectivas ideológicas diferenciadas.
Viana é enfático na sua crítica com relação ao fetichismo do cinema, pois, para ele, “o filme é uma produção social”, “nada tem de sublime e os produtores nada têm de genial, são seres humanos comuns...”. As diferenças entre as produções fílmicas consistem no capital cultural cumulativo de um diretor para outro, pois, alguns cineastas além de possuírem o capital cultural acumulado devido a sua condição de vida, possuem o capital cinematográfico que possibilita uma produção fílmica mais estruturada do que outras.
 As questões do fetichismo no cinema e do capital cinematográfico estão diretamente relacionadas à perspectiva marxista enfatizada pelo autor no decorrer da obra. A preocupação de Viana não é fazer um revisionismo teórico-crítico simplista da historiografia cinematográfica. Esta obra vai além, pois ela aponta os limites dos pseudomarxistas indo ao cerne do problema que muitas vezes está relacionado à mera descritividade, a linguagem técnica e superficial das produções cinematográficas. O materialismo histórico é um recurso metodológico fundamental para a compreensão aprofundada da história social do cinema, sendo assim, ele possibilita um rompimento com o fetichismo, com a ideologia cinematográfica criada pelos seus agentes de produção. A ideologia cinematográfica é perpassada por um conjunto de valores, construídos socialmente pelos ideólogos desde o momento em que o cinema foi criado.
O materialismo histórico procura compreender o cinema a partir das relações sociais em que ele foi produzido, pois o cinema é constituído socialmente. Neste sentido, a perspectiva marxista vai além das concepções fragmentárias que procuram isolar o cinema da realidade social e histórica.
A aplicabilidade da análise marxista é realizada pelo autor ao retratar o significado original do expressionismo alemão. Neste livro Viana demonstra as deformações, as incoerências e o tratamento equivocado dos ideólogos que abordaram o expressionismo, dentre eles, Kracauer (1988), Eisner (2002), entre outros. A abordagem de Viana sobre este período específico do expressionismo alemão é inovadora, pois ele situa este período contextualizando-o num momento histórico-social marcado pela ascensão das lutas operárias na Alemanha. Esta obra possui uma escrita clara direcionada não apenas para um público específico elitista e intelectualizado, pois é justamente este fetichismo ideológico que o autor procura superar.
O presente livro é um marco no que diz respeito à abordagem marxista da história do cinema, pois ele possui diversas concepções inovadoras que ainda não haviam sido desenvolvidas dentro da historiografia cinematográfica. A riqueza da escrita e do tratamento teórico-metodológico desenvolvido pelo autor é um convite para todos aqueles que desejam aprofundarem o seu conhecimento no campo da historiografia cinematográfica a partir de uma perspectiva crítica marxista revolucionária. A concepção marxista compreende a produção fílmica como uma criação coletiva desenvolvida no conjunto das relações sociais e neste sentido esta obra propicia uma compreensão aprofundada e pioneira no que se refere ao tratamento metodológico adequado para a análise da produção cinematográfica.
                                                                      

Jean Isídio dos Santos é Professor da Universidade Estadual de Goiás.

28 de jul de 2017

Minicurso: O Faroeste, o filme como manifestação do social






O RUPTURA - ESPAÇO CULTURAL e o GPDS (Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade), da UFG, promovem o minicurso "O Faroeste - O Filme como Manifestação do Social", nos dias 10, 17, 24 de agosto.

Minicurso: O Faroeste - O Filme como Manifestação do Social.

Ministrante: Dr. Nildo Viana/UFG.


Promoção: Ruptura - Espaço Cultural e GPDS/UFG.


Carga Horária: 16 horas.


Data:  [Quinta-feira] 10, 17, 24 de Agosto.


Horário: 19:00 - 22:30.


Local: Ruptura - Espaço Cultural.


Valor da Inscrição: R$ 20,00*


Período de Inscrição: Até dia 06 de agosto.


Número de vagas: 30.


Inscrição: fazer pré-inscrição para ver se tem vaga e, depois da confirmação de vaga, enviar comprovante de pagamento, nome completo, instituição de estudo ou trabalho, para o email locusincricoes@gmail.com

*A taxa de inscrição deve ser realizada via depósito ou transferência para a seguinte conta:

Caixa Econômica Federal
Agência: 1575
CC: 49398-0
André de Melo Santos





APRESENTAÇÃO



O Faroeste sempre foi considerado um gênero menor e inferior dentro da produção cinematográfica. Ele, inclusive em seu período considerado clássico, na segunda metade do século XX, foi recusado por todas as classes sociais e sua comercialização e divulgação foi devido ao fato da indústria cinematográfica vender, na época, pacotes que ao lado dos filmes de sucesso incluíam os chamados “western” (PROKOP, 1986).

Porém, o faroeste sobreviveu e se tornou um sucesso a partir dos anos 50-60 e foi reforçado principalmente com a vertente mais fantástica expressa no chamado “western-spaghetti”, o faroeste italiano. Os filmes dirigidos por Sérgio Leone se tornaram verdadeiros clássicos do cinema, bem como os filmes dirigidos por Damiano Damiani, Sérgio Corbucci, entre outros. Porém, junto com o sucesso vem a produção mercantil e em série, e as cópias mal feitas invadiram o mercado e a violência gratuita substituiu o contexto social e político das produções anteriores, fazendo o faroeste italiano cair em descrédito.

Já no final dos anos 1950, André Bazin, considerado um dos principais teóricos do cinema, começou a recuperar o faroeste como objeto de estudo. Através de seu livro O Que é o Cinema?, no qual dedicou um capítulo exclusivo ao faroeste, ressaltando suas qualidades, tornou este gênero cinematográfico digno de estudos e pesquisas, tal como a obra posterior de Rieupeyrout, que retoma o título do capítulo do livro de Bazin e é prefaciado por este. A partir daí, alguns clássicos, como filmes de John Ford e outros cineastas, passaram a receber estudos e artigos da crítica cinematográfica. Algumas outras obras foram produzidas sobre o gênero faroeste.

Porém, nestes estudos o foco é ou a história do western ou a descrição, enquanto que as obras analíticas se limitam ao enredo e em poucos casos ultrapassa o formalismo. Daí a necessidade de uma sociologia do filme de faroeste, visando demonstrar que tais obras cinematográficas são produtos sociais e históricos e, ao mesmo tempo, que elas manifestam o social. O foco do minicurso “O Faroeste, O Filme como Manifestação do Social” é este segundo aspecto e que está intimamente entrelaçado com o primeiro aspecto.

A sua relevância reside na busca de compreensão teórica de uma produção cultural tão distante da realidade contemporânea, ambientado em outra época, e como ela revela e manifesta as relações sociais da sociedade moderna, o que ajuda a compreender determinadas obras cinematográficas e a sociedade que a produz.



Além disso, o curso tende a incentivar a discussão teórica sobre o cinema e seus gêneros, e o faroeste mais especificamente, possibilitando fazer avançar a pesquisa e o ensino sobre cinema na perspectiva crítica, além de poder integrar pesquisadores e estudantes. Também contribui para uma percepção mais ampla do cinema e do faroeste, abrindo espaço para interlocução e desdobramentos futuros.

Ementa:
Os Gêneros Cinematográficos. O Faroeste e sua especificidade. O gênero e suas variações. A literatura sobre o faroeste. O filme como reprodução intencional e inintencional da realidade social. A produção social do filme. Valores, cultura, ideologemas manifestados no filme. Filme e Valores. Mudanças sociais e mudanças no faroeste. Faroeste e crítica social.

1º encontro:
Quinta-Feira: Dia 10 de agosto
Unidade I: Introdução à Sociologia do Faroeste
1.1.  Os Gêneros cinematográficos.
1.2.  Gênero, história e variações.
1.3.  O gênero faroeste.

2º encontro:
Quinta-Feira: Dia 17 de agosto
Unidade II: Faroeste e Sociedade
2.1. Filme e Reprodução da Realidade Social.
2.2. O Filme na Realidade.
2.3. A Realidade no Filme.

3º encontro:
Quinta-Feira: Dia 24 de agosto
Unidade III: Faroeste e História
4.1. Breve História do Faroeste
4.2. Mudanças Sociais e mudanças no Faroeste.
4.3. O Western e a Crítica Social.