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6 de fev de 2011

"Teoria Mortal": O Ideologema que Mata



"Teoria Mortal":
O Ideologema que Mata

Nildo Viana

O filme "Teoria Mortal" (Kill Theory, Chris Moore, EUA, 2009), trailer abaixo, tem como ponto de partida um ideologema (ou uma "teoria", tal como é colocado no título do filme). A importância do ideologema no referido filme faz dele um excelente caso para analisar a reprodução fílmica de ideologemas, bem como para outros tipos de ficção.

Um ideologema é um fragmento de uma ideologia, isolado e reproduzido sem a totalidade da ideologia que lhe deu origem. A ideologia é uma falsa consciência sistematizada, ou seja, é um pensamento falso, ilusório, que, no entanto, é complexto, sistemático, e assume várias formas, tais como a de filosofia, teologia, ciência, etc.[1]. Nas obras de arte e universos ficcionais, devido suas especificidades, geralmente não se reproduz uma ideologia com toda sua complexidade e totalidade, além do fato de que a grande maioria dos produtores de universos ficcionais não possuem domínio das ideologias que possuem ressonâncias fragmentárias em sua consciência. Geralmente, os ideologemas estão embutidos no universo ficcional e não são facilmente perceptíveis, assim como os valores, sentimentos, inconsciente, etc. Por isso o filme "Teoria Mortal" acaba assumindo grande importância ao tomar como ponto de partida e motivação do psicopata um ideologema. Obviamente, é sua motivação consciente, pois, obviamente, são seus problemas psíquicos que estão na origem do ato, sendo o ideologema apenas uma racionalização e auto-justificativa.

Qual ideologema é exposto no filme? O filme inicia com a história do assassino. Ele, em suas conversas com o psicólogo, trava um debate sobre o que o levou à prisão. Ele escalava uma montanha com amigos e, em certa altura, teve que decidir entre salvar sua vida cortando a corda que o ligava aos demais, o que os faria cair e morrer, ou continuar e ser solidário, e provavelmente morrer junto com eles. Após realizar este ato e ser preso, ele afirma que todos fazem isso. Ao ser libertado, o psicólogo pergunta se ele ainda acredita nisso e a resposta é que não.

A cena muda radicalmente, passando para jovens que foram para uma casa de verão para comemorar o fato de terem terminado a graduação. Porém, logo aparece o assassino, que busca colocá-los na mesma situação que ele teve para comprovar sua tese (ideologema) de que todos os seres humanos lutam pela sobrevivência e, seguindo seus instintos, podem matar até os amigos. A casa é totalmente isolada e não havia comunicação e ele exige que eles matem uns aos outros e o sobrevivente que restar até as 06 horas da manhã, sairá vivo, mas, se nesse horário ainda estiver mais de um vivo, ele matará a todos. A trama do filme gira em torno disso, mostrando as tentativas de fuga, conflitos, etc.


O ideologema em questão é fragmento comum de várias ideologias que apontam para o determinismo biológico, mas tem como base a ideologia darwinista. A luta pela sobrevivência e a sobrevivência dos mais aptos [2]. A competição e a luta intraespécie é naturalizada e reforçada por essa ideologia e pela sua vulgarização e popularização, na qual determinados ideologemas podem ser identificados em frases, tal como "luta pela vida", "lei do mais forte", etc.

A princípio, o ideologema parece ser confirmado, pois os grandes amigos, que no início da noite festejavam e o filho do dono da casa afirmou que amava a todos, logo entram em conflito, e alguns buscam se salvar independentemente dos demais, até que, no final, começam a entrar no jogo do assassino e tentam matar os amigos para escapar da morte. Porém, o final do filme acaba sendo marcado por um ato de solidariedade, o que refuta o ideologema. Nesse sentido, o filme não é ideologêmico, pois realiza a crítica a um ideologema. E ainda mostra que um ideologema, tal como as ideologias, é mobilizador, produz ação, interfere na realidade [3].



[1] - Sobre ideologia, confira: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). São Paulo, Hucitec, 2002; VIANA, Nildo. Cérebro e Ideologia. Uma Crítica ao Determinismo Cerebral. Jundiaí, Paco Editorial, 2010.

[2] - Sobre darwinismo, confira: VIANA, Nildo. Darwin Nu. Revista Espaço Acadêmico. num. 95, Abril de 2009. Para acessá-lo, clique aqui.

[3] - Para uma análise mais desenvolvida do caráter mobilizador da ideologia, veja o texto acima citado sobre "Cérebro e Ideologia".

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