27/02/2011

O Imperio do Dinheiro em "Ambição em Alta Voltagem"

"Ambição em Alta Voltagem" de quem criou o título na versão brasileira...

O Imperio do Dinheiro em 
"Ambição em Alta Voltagem"

Nildo Viana


O título do filme no Brasil ficou sendo "Ambição em Alta Voltagem" (Allen e Albert Hughes, EUA, 1995), um título comercial que busca ser atrativo mas que não tem relação com o verdadeiro conteúdo da obra, sendo apenas mais um título problemático (Viana, 2009). Este filme dos Irmãos Hughes abre espaço para refletir sobre várias questões sociais, entre elas o poder do dinheiro, a questão racial, a guerra do Vietnã, etc. O título original é mais fiel ao conteúdo: "Dead Presidents", que pode ser traduzido por "presidentes mortos". Sem dúvida, o título não ajuda a compreender o conteúdo caso não se preste atenção na cena inicial, até mesmo  no caso dos assistentes dos Estados Unidos e mais ainda do Brasil e resto do mundo. A cena inicial mostra várias cédulas de dólares queimando. Claro que muitos sabem que as cédulas possuem as figuras de ex-presidentes dos Estados Unidos, inclusive Abraham Lincoln, o mais conhecido no Brasil devido sua exploração em filmes e desenhos. Os presidentes mortos são as figuras das cédulas e representam o dinheiro e seu caráter mórbido e necrófilo. 

O filme não retrata nenhuma ambição desmedida, como parece indicar o título da versão brasileira, e sim o dilema de alguns personagens, especialmente o personagem principal, Anthony Curtis, que não é parente do famoso ator Tony Curtis, como lhe pergunta um açougueiro e ele demora a entender. Curtis é um jovem que quer fazer "algo diferente" e sua falta de ambição é demonstrada ao preferir ir para a guerra do Vietnã ao invés de ir para a Universidade, como seu irmão, para obter sucesso. A mãe de Curtis fica descontente, mas o pai apoia (serviu ao exército também). Curtis vai para a guerra, e sendo negro, tem um amigo que sempre lhe dizia que aquela era uma guerra de brancos, embora acabe indo também. 

Depois de voltar da guerra se encontra desempregado, com uma filha e esposa para cuidar. Acaba se empregando num açougue e um ex-namorado (durante a guerra) que visita sua namorada e filha enquanto ele estava fora, é o seu grande problema, principalmente quando o açougue fecha e fica novamente desempregado e tem que conviver com a cobrança da mulher, que recebe dinheiro do ex-amante. Isso provoca sua ira e aliança com antigos amigos (um pastor que esteve na guerra e guardava uma cabeça de vietcong como "amuleto de sorte"; dois amigos de antes da ida e que foram com ele e se tornaram viciados em droga - um sendo o único branco do bando, um dono de bar que tinha negócios ilícitos fechados e uma militante do movimento negro radical e irmã de sua esposa) e planeja com eles um assalto a um carro-forte. Na tentativa de assalto, dois dos assaltantes (a militante e o viciado branco) e vários policiais morrem. 

Os quatros que restaram repartem o dinheiro entre si, mas o pastor acaba esbanjando seu dinheiro e sendo descoberto pela polícia, o que leva a todos os demais que encontra o viciado negro morto por overdose e prendem os demais. Curtis é julgado e condenado à prisão perpétua, o que lhe faz jogar uma cadeira no juíz e reclama de ter arriscado a vida e ajudado na guerra por nada (o advogado argumentara, em seu favor, não só isso como sua situação precária de vida, o que o juiz retrucou dizendo que também serviu durante a Segunda Guerra Mundial e que ele envergonhava o exército).

Neste contexto, o dinheiro é a mola mestra do filme, é por causa dele que Curtis resolve assaltar um carro chefe, bem como seus companheiros e é isso que tem valor - no sentido de ser importante, significativo, para os indivíduos de uma sociedade mercantil e coisificada (Viana, 2007). É graças a ele que policiais e assaltantes morrem e outros são destruídos e prejudicados. É o império do dinheiro que diz quem é a pessoa, o seu "valor", como ela vive, suas relações sociais e amorosas, etc. E é ele que gera a criminalidade, destrói vidas, corrompe. Mas o império do dinheiro é expressão de relações sociais, relações capitalistas, que criam uma sociabilidade fundada na competição, mercantilização e burocratização (Viana, 2008), que, por sua vez, gera pobreza, desigualdade, racismo, etc. A sociedade do dinheiro é a sociedade da desumanização e isto o filme mostra bem.

Referências:

VIANA, Nildo. Como Assistir um Filme? Rio de Janeiro, Corifeu, 2009.
VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasilia, Thesaurus, 2007.
VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo, Escuta, 2008.

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