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7 de nov de 2018

A Nós a Liberdade, Um Filme Axionômico

A Nós a Liberdade, Um Filme Axionômico

Nildo Viana



Um filme axionômico é A Nós a Liberdade, de René Clair (França, 1931). Claro que a percepção disto é mais fácil assistindo ao filme. O filme mostra uma perspectiva crítica em relação aos valores dominantes, o que pressupõe outros valores. Ao criticar o dinheiro, trabalho alienado, o amor romântico, tal como no filme, há uma refutação de determinados valores e uma apresentação de outros, tal como a amizade, a liberdade (o trabalho não como alienação e sim como objetivação), o amor sexual como parte e não como objetivo da vida.
Mas além desta crítica e dos valores antagônicos implícitos nela, o filme apresenta explicitamente outros valores, antagônicos aos valores dominantes. O filme ressalta a amizade como valor (acima dos interesses financeiros), tal como se pode observar no reencontro entre os dois amigos fugitivos da prisão. A cena apresenta o ex-prisioneiro que se tornou um capitalista oferecendo dinheiro ao outro ex-presidiário. Este último recusa o dinheiro e um acidente que provoca um ferimento gera uma situação que faz com que o capitalista realize um ato de solidariedade. Isto permite o rompimento com a desconfiança e a retomada da amizade. A canção principal do filme (dos prisioneiros que se libertam) manifesta diversos valores e desvalores, tal como se pode notar:

Na vida, a liberdade é tudo o que conta
Mas o homem inventou a prisão,
Códigos e leis, fazer e não fazer.
Trabalho, escritórios e casas também.
Você não concorda...
O que a vida pode ser?
Meu velho amigo, a vida é incrível
Quando se está livre para ser você mesmo.
Então vamos, vamos nos libertar
Ar fresco é bom para a saúde.
Em qualquer lugar, se tiver uma chance,
Em qualquer lugar, a vida é uma melodia.
Em qualquer lugar, é vinho e romance
Então aqui estamos, nós dois e a liberdade!
Você nunca deveria ter pensado em casamento
Quando se nasceu para viver viajando
Enquanto espera que a idade da sabedoria o possa trazer
Pense no amor como um mero episódio
É o nosso destino
Velho companheiro
Meu velho amigo, a terra é redonda.
Haverá mulheres onde for
Quando finalmente chegarmos ao fim
Será a hora de ir mais devagar
Em qualquer lugar, se você tiver a chance
Em qualquer lugar, a vida é uma melodia
Em qualquer lugar, é vinho e romance
Então aqui estamos, nós e a liberdade!

Trecho do filme com a "canção da liberdade":


Esta canção apresenta determinados desvalores, que trazem, em si, determinados valores implícitos. Os valores explícitos são os da liberdade (“a liberdade é tudo o que conta”), a vida (“a vida é incrível”), a autenticidade (a vida é incrível “quando se está livre para ser você mesmo”), a melodia (se a vida é um valor e depois se diz que “a vida é melodia”, então esta última também é um valor), o romance, etc. No entanto, também apresenta desvalores, que implicitamente carregam valores. Os desvalores são determinadas invenções dos seres humanos: a prisão, códigos, leis, casamento. Por detrás de todos estes desvalores há um valor implícito, o da liberdade. Assim, o filme A Nós a Liberdade é axionômico.


(TRECHO DO LIVRO: VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007).

Assista o filme completo:



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