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Informe e Crítica

28 de jun. de 2026

A Juventude Pueril em “High School Musical 3”

 



A Juventude Pueril em “High School Musical 3”

Nildo Viana

 

Este filme é de 2008 e portanto o mais atual de todos*. O filme “High School Musical 3 – O Ano da Formatura”, Kenny Ortega (EUA, 2008) é um filme que os setores intelectualizados da sociedade, grande parte dos críticos de cinema e até pesquisadores e militantes políticos considerariam indigno de comentar, assim como o fazem em relação a diversos filmes chamados pejorativamente de “trash”. Sem dúvida, o filme é bastante fraco e não tem muitos atrativos, sendo um filme B (médio orçamento) e trivial. Porém, é um filme que faz parte da realidade social, sendo produto dela e agindo sobre ela, e, por conseguinte, é digno de comentários e análises, por mais negativas que elas possam ser.

Além disso, este filme também tem o papel de mostrar que uma assistência crítica pode ser realizada a partir de qualquer produção cinematográfica. Outro motivo para a escolha deste filme, embora milhares de outros, iguais ou radicalmente diferentes também tenham a mesma característica, é sua atualidade, embora seja expressão de um determinado tipo de filme, cuja características estão ligadas ao público a que se destina.

 

A) Contextualização

Novas mudanças sociais ocorreram em relação aos anos 1990. Na verdade, o mesmo regime de acumulação domina e o neoliberalismo é a forma estatal hegemônica. No entanto, é um estágio avançado do neoliberalismo, que passa a se tornar ainda mais repressivo e que já não se sustenta como pensamento único, sendo que seu edifício já possui muitas rachaduras. Assim, é o período de contradições crescentes. Este contexto histórico, no entanto, convive com um processo de hipermercantilização da cultura e a formação de nichos específicos de mercado, o que é explorado por diversos setores do capital cinematográfico.

Assim, o capital cinematográfico – e outros setores associados ou isoladamente – buscam constituir um novo nicho de mercado, um setor da juventude cuja idade está na fronteira com a infância, atraindo, portanto, crianças com idade acima de dez anos e jovens de até uns 20 anos aproximadamente. No setor cinematográfico, criou-se um filão de filmes para tal setor da juventude, com filmes triviais, tramas superficiais e simples, com personagens jovens e geralmente colegiais ou ainda em estágio anterior no processo educacional.

Este novo nicho de mercado fez fortuna com filmes como Pânico, que é de 1996, e suas seqüências: Pânico 2, Wes Craven (EUA, 1997) e Pânico 3, Wes Craven (EUA, 2000), o que inclui a paródia Tudo Mundo em Pânico e os diversos outros pânicos[1], o que deve ter feito a cabeça da juventude colegial ficar em “pânico” ou entrar em “pane”[2]. Na mesma trilha, para o mesmo público, surgiram High School Musical 1 e 2. O terceiro da seqüência é o filme que abordaremos adiante.

 

B) Informações Preliminares

O filme High School Musical 3 é um produto da Walt Disney Pictures, parte do império Disney, que conta com outros estúdios, editoras, e a partir de 2006 adquiriu a ABC, a maior rede de televisão dos Estados Unidos, além de ter o Disney Channel e Jetix, TVs por assinatura, e os canais de esporte do ESPN. Também possui complexos turísticos temáticos, tal como Disneylândia, em vários países (EUA, Japão, Itália, Hong Kong). O grande sucesso de Disney são os personagens de quadrinhos, Mickey, Pateta, Pato Donald e Tio Patinhas, entre outros, mas o império começou com o cinema, fundada com o nome Disney Brothers Studio, renomeado para Walt Disney, em 1926 e cujo foco sempre foi o desenho animado, principalmente voltado para seus personagens e contos de fadas, sendo que lançou vários curtas metragens sobre estes personagens desde 1928 e seu primeiro longa metragem foi Branca de Neve e os Sete Anões, David Hand (EUA, 1937) e depois amplia para outros tipos de animação e filmes, a partir dos anos 1960, o que se intensifica nas décadas seguintes. A partir do início do século 21, a Disney amplia seu império comprando outros estúdios e direitos (Pixar Pictures e a produtora japonesa de Power Rangers, os direitos de Pokemon, etc.).

Em 2006 lança High School Musical no Disney Channel e tem uma audiência recorde para TV por assinatura: mais de 7 milhões, o que será superado em 2007 por High School Musical 2, com mais de 17 milhões de assistentes. Devido a este sucesso de audiência, a Disney lança o terceiro da série não mais por sua TV e sim pelo cinema, já que teria sucesso de bilheteria garantido e poderia, como em breve irá ocorrer, passar na TV a cabo, tendo nova grande audiência. Ao lado da grande audiência e bilheteria, a trilha sonora dos dois filmes tiveram ampla vendagem, chegando a milhões de cópias vendidas, e alto lucro. No Brasil, High School Musical 3 foi a maior bilheteria na semana de seu lançamento, tendo um público de mais de 460 mil pagantes.

A Walt Disney Pictures teve como público prioritário o infantil, com seus desenhos animados e animações. A produção de filmes com pessoas reais inicia-se em 1949 mas só se consolida no século 21. High School Musical é uma inovação, já que busca atingir o público infanto-juvenil, ao invés de meramente infantil. Esta produção está inserida no contexto do processo de hipermercantilização da cultura que se inicia a partir de 1980 e se aprofunda nos anos seguintes e conseguiu produzir um novo nicho de mercado consumidor, composto pelo público infanto-juvenil pertencente principalmente às classes privilegiadas. Assim, High School Musical 3 é parte da produção cultural descartável produzida para a juventude que ainda se encontra na fase colegial e mesmo crianças acima de dez anos já fazem parte do público deste filme.

 

C) Identificação da Trama do Filme:

A trama do filme High School Musical 3 é o destino dos jovens colegiais do East High School, ou seja, para qual universidade se encaminharão após a formatura, envolvendo principalmente o futuro dos personagens principais, Troy e Gabriella.

 

D) Identificação da Situação Problema e da Mensagem Central.

A principal situação problemática é a futura universidade para onde irão os personagens principais Troy Bolton e Gabriella Montez – que foram os personagens principais dos dois filmes anteriores da série e vivem um romance –, pois Gabriella foi aceita pela Universidade de Stanford[3], e tendia a aceitar, inclusive devido pressão da mãe, e Troy, também submetido à pressão do pai, que queria que ele fosse para uma universidade em que pudesse jogar basquetebol, ficaria muito longe dela. Troy tem também a situação problema adicional da dúvida entre escolher o basquete (o que o pai e seu melhor amigo Chad Dandford gostariam) ou a música.

Outras situações-problema são relativas ao futuro dos demais personagens, inclusive a disputa por uma bolsa para a Julliard School que seria definida por visitantes dessa no dia de apresentação musical no final do ano. A disputa pela bolsa, que apresenta a grande vilã da trama, Sharpay Evans, relaciona diretamente a trama com a música e o show.

A mensagem central relacionada com a situação problemática principal é que o amor supera as dificuldades, pois o casal acaba conseguindo realizar seus sonhos e ficar próximos ao mesmo tempo. Outras mensagens são apresentadas, tal como os perigos da competição desenfreada, tal como se vê na surpresa de Sharpay Evans ao ver sua auxiliar buscando superá-la e ficar em seu lugar.

 

E) Identificação da resolução (ou não-resolução) da situação-problema:

A resolução da situação problemática ocorre no final do filme quando, após diversos desencontros e dificuldade no caminho, Troy encontra a saída: vai para a Universidade da Califórnia, onde desenvolverá suas duas paixões, o basquetebol e a música, e que fica a 50 km da Universidade de Stanford, onde ficará Gabriella, ou seja, é um happy end que mostra que o amor supera os obstáculos. Assim, ele agrada o pai, o amigo e a namorada.

 

F) Relação entre Universo Ficcional e Relações Sociais.

O filme tem o objetivo de atingir o público infanto-juvenil, principalmente os pertencentes às classes superiores, e por isso apresenta um mundo sem grandes problemas e complicações, tal como os personagens. Os personagens são expressões de uma juventude pueril que possuem uma vida idílica.

Assim, o mundo ficcional revela uma juventude pueril, que não possui, devido sua classe social (burgueses e integrantes das classes auxiliares da burguesia), conflitos familiares mais intensos, problemas financeiros graves. Também não possuem desequilíbrios psíquicos ou envolvimento com drogas ou qualquer outra coisa que se afaste do mundo idílico em que vivem. Não ocorrem acidentes, morte de parentes, racismo, nada mais forte ocorre no sentido de perturbar esse mundo estável e tranquilo. Da mesma forma, a sexualidade também está ausente, não havendo nenhum problema neste sentido e isso está muito longe do filme O Clamor do Sexo, Elia Kazan (EUA, 1961), onde a sexualidade é o motor da ação. Há apenas o puro amor romântico de Troy e Gabriella, sem culpas, sem desejo, sem conflitos. Os outros personagens nem amor romântico possuem, com a exceção de Chad Dandford e Taylor McKessie, em rápidas e cômicas passagens. O público infantil pode assistir o filme sem nenhum “constrangimento”, afinal, é um filme Disney que retrata uma juventude pueril e das classes superiores, tão distante da sexualidade quando os personagens das histórias em quadrinhos da Disney.

Os valores apresentados no filme são fundamentalmente dois: o amor romântico e o sucesso. O amor romântico é expresso pelo casal formado pelos personagens principais. Através do amor romântico, eles superam suas dificuldades (inclusive, geográficas) de relacionamento e ainda conseguem o sucesso no show musical, passando por cima da rival Sharpay Evans. Assim, o amor romântico é a chave para a superação dos obstáculos e para o sucesso. A segunda mensagem é a busca do sucesso via competição, que tem em Sharpay Evans a personagem que corporifica exemplarmente este objetivo, mas que não está ausente nos demais. A diferença é que Sharpay usa de todos os artifícios para conseguir o que quer, o que lhe faz fracassar, pois “sem amor” não há sucesso, embora todos queiram conquistá-lo.

A concepção por detrás disso tudo é que a ambição desmedida ou a luta pelo sucesso sem amor leva ao fracasso. Esta lição de moral é tão pueril quanto a juventude retratada no filme. Isto revela duas formas de perspectiva burguesa da realidade social: a forma da classe burguesa expressa por Sharpay Evans, filha de burgueses, cuja mentalidade competitiva aponta para a busca por vencer os adversários, conquistando fama e sucesso; e a forma de setores das classes auxiliares (e que também é forte nas classes inferiores), expressa na maioria dos personagens e especialmente em Troy e Gabriella, o amor romântico como sendo o elemento mais importante da vida.

A arte também aparece como valor, bem como o esporte, e, reproduzindo a escala de valores da sociedade burguesa, a arte antes do esporte. Obviamente que a arte presente no filme é tão pueril quanto os personagens – o que é lógico: artistas pueris produzem arte pueril – e o esporte é um valor abaixo na escala de valores expressa pelo filme. A concepção de arte e esporte é a do mero passatempo, fuga da realidade, que, no fundo, nem precisa de fuga, já que é uma irrealidade, ou seja, é muito idílico para ser verdadeiro. Mas também é o espaço da competição, já que não existe espaço para todos no capitalismo.

A mensagem central do filme, bem como as submensagens, são bastante superficiais e não ultrapassam os clichês da cultura mercantil trivial. Obviamente que o capital cinematográfico e a equipe de produção não pretendiam ir além disso. A idéia é produzir um filme com pouca complexidade, sendo simples e, portanto, compreensível – em seu universo ficcional – para os assistentes infanto-juvenis, sem grandes mensagens, ficando na superficialidade e lugar comum, usando alguns poucos atrativos mais elaborados (a beleza de algumas atrizes, o romantismo que atinge parte do público infanto-juvenil, etc.) e ter retorno financeiro. A conseqüência social do filme é, além do consumo deste produto descartável, o hábito do consumo da cultura mercantil trivial e o reforço de algumas concepções e valores dominantes, bem como a possibilidade de que parte dos assistentes pode tomar os jovens vazios do filme como inspiradores de comportamento.

 

G) Reflexão Pós-Assistência:

O filme High School Musical 3 expressa uma juventude pueril que pode influenciar os assistentes infanto-juvenis como modelos temporários de comportamento e que é mais comum nos Estados Unidos. A juventude norte-americana pertencente às classes superiores e na faixa etária representada pelos jovens do filme possui semelhanças com os personagens pueris apresentados no écran. Sem dúvida, mesmo estes jovens norte-americanos possuem problemas e dilemas mais intensos dos que os que são apresentados no filme, mas não são tão explícitos e que podem ser escondidos como no universo ficcional de High School Musical. Uma sociedade conservadora que reproduz nas suas produções fictícias o seu conservadorismo é o que se vê neste filme.

A juventude pueril domina o universo ficcional do filme e por isso não avança em problematizar as relações sociais ou em acrescentar, seja lá o que for, aos assistentes. O mundo de High School Musical é idílico, puro, romântico, fora dos conflitos sociais e dilemas existentes, inclusive da juventude. O cinema americano passou da juventude transviada para a juventude pueril[4]. Claro que isto não quer dizer que toda a produção cinematográfica norte-americana faça isto. Um exemplo contemporâneo de filme que retrata os dilemas da juventude de forma ampla e profunda é Donnie Darko. A questão é que quem produziu um filme é bem diferente de quem produziu o outro, bem como os objetivos não eram os mesmos.

É por isso que a personagem Sharpay Evans acaba se destacando e sendo a preferida de grande parte do público, apesar de sua condição de vilã. Esta condição de vilã faz a personagem ter mais vida, ser mais humana e verossímil do que os demais personagens, demasiadamente puros, ingênuos, honestos e bons[5]. No filme não há nada que lembre a juventude passada, nem a dos anos 50 nem a da década de 60, não tendo sexo, droga e rock’n roll. O sexo no filme é assexuado e infantil; a droga é inexistente e o rock é apenas uma sombra apagada e superficial, já não tendo mais nada a ver com seu caráter contestador, com sua força melódica e instrumental. A relação dos personagens com o esporte e a arte é tão superficial que parece algo gratuito, tal como quase tudo neste mundo fútil e vazio do High School Musical.

A questão que poderia se colocar é: a juventude pueril apresentada no filme não é mera expressão do público infanto-juvenil que o assiste? A resposta é negativa. Na verdade, a criação fictícia de uma juventude pueril que protagoniza um filme não expressa a juventude real, de carne e osso, mesmo em sua faixa etária mais inferior. Está mais próximo de determinada juventude. A juventude que acaba de sair da infância, que pertence às classes superiores, que estuda no ensino médio e mora nos Estados Unidos, um país extremamente conservador. Assim, a juventude pueril do filme é próxima a um setor da juventude existente principalmente nos EUA, mas, mesmo nesse caso, como a vida concreta é mais complexa do que a ficção superficial, é apenas proximidade.

Sem dúvida, a produção fictícia de Walt Disney Pictures, bem como seus outros meios de comunicação, posição na qual é a segunda maior nos Estados Unidos, tem efeito sobre muitos jovens, nos EUA e, em menor grau, em outros países, influenciando ou reforçando esta imaturalização da juventude. O capitalismo, depois de criar a juventude (Viana, 2004) agora se esforça em criar uma “pré-juventude”, um novo nicho de mercado consumidor, que também tem um efeito político. Até mesmo séries de TV para crianças, como Anos Incríveis[6], ou desenhos animados como Alice no País das Maravilhas, Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske (EUA, 1951) ou ainda filmes como O Pequeno Príncipe, Stanley Donen (Inglaterra/EUA, 1974) conseguem colocar questões muito mais profundas e o público-alvo é constituído por crianças. Assim, o capital cinematográfico e principalmente Walt Disney, são os principais arquitetos desta produção de uma pré-juventude consumidora e pueril, um novo mercado consumidor, que, no entanto, e felizmente, não assiste apenas as produções culturais deste tipo.

 

H) Avaliação

O filme High School Musical 3 não tem muito a oferecer. O universo ficcional é extremamente simples e superficial e os dilemas apresentados são tão pueris que não correspondem a problemas psíquicos, existenciais ou sociais dos assistentes que sejam realmente existentes. O compromisso social do filme é apenas reproduzir alguns clichês de forma superficial para assim poder garantir o mercado consumidor do filme e de todas as mercadorias complementares (CDs com músicas, por exemplo). Os valores e concepções repassados são os dominantes e até isto é feito com tamanha superficialidade que não chega ao nível de inúmeros outros filmes que emitiram a mesma mensagem. O aspecto formal não apresenta nada de diferente em relação ao conteúdo, as músicas e letras também não possuem nenhum significado mais profundo e não ultrapassam a superficialidade.

Assim, a trama é extremamente simples e superficial, tornando o filme bastante desinteressante até para uma assistência contemplativa. Isto pode provocar a questão sobre a razão do sucesso de bilheteria e assistência do filme. O que provoca isso é, por um lado, a publicidade e o poder persuasivo da empresa por detrás da produção, a Walt Disney, cujo poder é enorme, tal já colocamos, nos EUA e no resto do mundo, sendo que a TV por assinatura Disney Channel é mundial e atinge justamente as classes superiores.

Por outro lado, isto é reforçado pelos círculos de amizade e reprodução de influência e pressão social deste público infanto-juvenil e sua extensão para outros grupos, indivíduos, classes sociais. Este último processo é reforçado pela publicidade e propaganda da empresa produtora e dos setores empresariais associados (desde a pequena loja que vende CDs ou DVD que lucra com a vendagem até às grandes, para citar somente um exemplo, sem entrar nas lojas que vendem outros apetrechos e ganham com os produtos ligados ao filme, etc.), cria-se um clima social favorável para tal sucesso, que é uma produção cultural que logo será esquecida por ser descartável, a não para alguns jovens que terão, por razões sentimentais, uma ligação nostálgica com tal produto cultural.

Por conseguinte, trata-se de um filme de baixa qualidade, embora ninguém o chame de “trash”. O significado histórico é ser expressão deste processo de hipermercantilização da cultura que produz produtos descartáveis e nichos de mercado, e que poderá, caso se consolide tal nicho, ser substituído por várias outras mercadorias semelhantes e com a mesma má qualidade. Logo, se trata de um filme comercial, trivial e descartável, cuja avaliação só pode ser negativa, já que a qualidade é baixíssima.

* De todos os filmes analisados no livro abaixo especificado.

[1] Para quem estiver interessado em pesquisar ou assistir filmes semelhantes: Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Jim Gillespie (EUA, 1997); Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Danny Cannon (EUA, 1998); Pânico na Ilha, Jay Chandrasekhar (EUA, 2004); Pânico no Deserto, Dave Payne (EUA, 2005); O Dia do Terror, Jamie Blanks (EUA, 2001); Lenda Urbana, Jamie Blanks (EUA, 1998); Lenda Urbana 2, John Ottman (EUA, 2000); Tudo Mundo em Pânico II, Keenen Ivory Wayans (EUA, 2001); Tudo Mundo em Pânico 3, David Zucker (EUA, 2003); Tudo Mundo em Pânico 4, David Zucker (EUA, 2006) e diversos outros.

[2] Entrar em pânico, sendo que a palavra significa “assustar sem motivo” ou “terror infundado”, pois o filme só assusta criança incauta, sendo mais um filme de “suspense ligeiro” do que de terror, como é costume classificá-lo, ou “entrar em pane”, que é o que ocorre com avião, automóvel ou motocicleta quando há uma “parada por defeito”, ou seja, no sentido metafórico, pois é um filme que pode fazer a cabeça do jovem parar por defeito, devido a tão pouco estímulo intelectual. Claro que os filmes até que podem ser assistidos, já que permitem uma assistência contemplativa, mas em matéria de qualidade são extremamente fracos.

[3] É preciso recordar que o sistema de ensino norte-americano é diferente do brasileiro, sendo que a entrada na universidade não se dá via vestibular e sim, para quem terminou o ensino médio (high school), o exame de aptidão e, para os estrangeiros, o teste de conhecimento em língua inglesa.

[4] Quando a juventude emerge como mercado consumidor, a partir dos anos 1950, na sua segunda metade, surgem filmes que tematizam problemas juvenis, desde Juventude Transviada, Nicolas Ray (EUA, 1955) e Vidas Amargas, Elia Kazan (EUA, 1955) até O Clamor do Sexo, que é de 1961.

[5] Claro que a participação desta atriz e cantora (Ashley Tisdale) em um programa da Disney Channel (Zack e Cody) com uma personagem “proletária” e que às vezes faz discurso crítico e se contrapõe a uma personagem burguesa, tanto por ter maior sensibilidade quanto cultura, é um motivo que reforça isto, bem como outros elementos (sua participação nos filmes anteriores, sua carreira de cantora, etc.). Isto, no entanto, não anula o fato de que a personagem agrada em si, por ser de carne e osso e não mera fantasia vazia por dentro.

[6] Série de TV produzida nos EUA, entre 1989 e 1993.

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Texto publicado originalmente em:

VIANA, Nildo. Como Assistir um Filme. Rio de Janeiro: Corifeu, 2009.


2 de mai. de 2026

EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 


EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 

Nildo Viana*

 

O filme Eden (Ron Howard, EUA, 2025) é uma curiosa obra cinematográfica. Muitos a qualificariam como uma “utopia”. O nosso objetivo aqui será realizar um breve comentário sobre este filme visando discutir o suposto caráter “utópico” que é atribuído a ele.

Uma sinopse breve do filme assim o apresentaria. “O filme retrata um episódio pouco explorado da história europeia da década de 1930. Um casal alemão decide se estabelecer na ilha de Floreana, nas Ilhas Galápagos, renunciando aos valores que julgavam estar corroendo a humanidade, com o intuito de construir uma existência alternativa em meio à natureza selvagem. A obra aborda temas como a sobrevivência, o mistério e as complexas dinâmicas humanas diante das adversidades, à medida que o ‘ideal utópico’ dá lugar à desconfiança, à violência e ao colapso moral. A natureza humana é mais forte do que a utopia”.

Porém, esses lugares-comuns são falsos e não expressam o real significado do filme. O filme se baseia numa história real, que foi a do casal alemão Friedrich Ritter e Dore Strauch. Eles moravam em Berlim, e em 1929 abandonam a Alemanha para ir para uma ilha distante. A razão da aventura é que Ritter era um crítico da sociedade moderna, um adepto da filosofia nietzschiana, considerado que o mundo moderno estava em decadência por causa dos valores corrompidos que o dominam. O clima pessimista de 1929 (e que foi retratado em várias obras, a começar pelo livro de Oswaldo Spengler, A Decadência do Ocidente)[1]. Ritter queria voltar, assim, ao mundo natural, no qual a “luta pela vida” e a “vontade de poder” se manifestasse integralmente.



O filme reproduz a vida do casal na Ilha Floreana, na qual eles viviam e ele escrevia seu livro e cartas para os jornais europeus. A trama começa quando um outro casal chega na ilha a partir da leitura das cartas de Ritter, com o objetivo de se instalar e contribuir com a formação do “novo modo de vida”. Porém, o novo casal é mal-recebido pelos moradores originários (o casal alemão, pois a ilha era desabitada). Ritter os colocam num lugar inadequado para sua sobrevivência e longe dele e sua esposa. Logo depois chega uma suposta “Baronesa”, chamada Eloise von Wagner, que vem acompanhada de empregados/amantes e objetiva construir um hotel, denominado “Hotel Hacienda Paradiso”. O conflito original entre os dois primeiros casais, que não era muito forte devido ao fato de que o segundo casal era mais amistoso, acaba sendo atingido por essa chegada, pois a Baronesa acaba incomodando a ambos e gera conflitos entre eles como forma de conseguir atingir seus objetivos. O resto do filme é apenas a expressão da tragédia e de conflitos violentos.

É nesse contexto que emerge a interpretação segundo a qual a ida para a ilha tinha a intenção de realizar uma utopia e que o fracasso desse projeto ocorreu por causa da “natureza humana”. Assim, a ilha não seria a responsável pelo fracasso, mas a própria essência humana. Nesse sentido, o filme seria considerado “utópico”, mas realista, e isso explicaria o fracasso.

Essa interpretação é totalmente equivocada. Em primeiro lugar, nem a ilha, nem o filme, eram “utópicos”. Claro que o entendimento disso pressupõe a compreensão do que é utopia. Tal como colocamos em outro lugar[2], “a utopia significa uma negação da sociedade presente, uma crítica dela, e, simultaneamente, um projeto de uma nova sociedade”[3]. Nesse caso, basta perceber que Ritter não é um crítico do capitalismo e sim de aspectos do capitalismo. A sua inspiração em Nietzsche demonstra isso. O comportamento de Ritter e sua esposa em relação ao casal Margret também demonstra que não estão interessados em uma sociedade radicalmente diferente. O casal Magret é o que mais se aproximaria de uma concepção utópica. Porém, a ideia original não foi deles e sim do casal alemão que chegou pioneiramente na ilha. A Baronesa, por sua vez, possui apenas um projeto capitalista e comercial visando explorar a ilha no sentido financeiro. Em síntese, os personagens principais não são utópicos e os demais habitantes da ilha tem um casal que tem proximidade com um ideal utópico e uma baronesa e seus serviçais que é antagônico a qualquer utopia.

Sendo assim, o filme não traz uma utopia. O que ele traz então? Uma pseudoutopia burguesa inspirada em Nietzsche, ou seja, que vem apenas para defender o imoralismo do “super-homem”, “além do bem e do mal”. Uma pseudoutopia é “uma falsa utopia.  A razão disso se encontra no fato de apontar para uma sociedade do futuro que seria melhor, mas estruturalmente é a mesma sociedade, na qual as “melhorias” podem ser duvidosas, problemáticas, pequenas alterações, etc.”[4].

Em segundo lugar, a contraposição que alguns assistentes para explicar o fracasso da experiência pseudoutópica é que isso ocorre não por causa da ilha e sim devido à “natureza humana”. No fundo, essa ideia de “natureza humana” é ideológica. Marx já criticava autores como Jeremy Bentham[5], que projetava o indivíduo de sua época e sociedade como sendo a “natureza humana”. Os indivíduos que chegaram na ilha de Floreana não eram expressão da “natureza humana” e sim de seres humanos socializados e formados pela sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa. Alguns, com maior intensidade, como a baronesa, outros, com menor intensidade, como o casal Margret. A inspiração de Ritter em Nietzche, o “filósofo do imperialismo” e um dos grandes legitimadores do capitalismo é suficiente para se demonstrar isso[6]. Nem sequer Rousseau era a inspiração. Muito menos Marx ou qualquer autor anticapitalista. O egoísmo de Ritter e da Baronesa mostra o seu vínculo com os sentimentos antipáticos gerados pelo capitalismo, bem como seus valores (possessividade, individualismo, etc.).

O que derrota a experiência é o mesmo dilema que o mundo enfrenta atualmente e nada tem a ver com “natureza humana” e sim com sua recusa: conflitos de interesses, competição, ambição, elementos característicos do capitalismo. Os indivíduos que chegam na ilha não são vazios, são portadores de sentimentos, concepções e valores, que, por sua vez, expressam a mentalidade burguesa. Logo, o que gerou o fracasso da experiência pseudoutópica não foi a natureza humana e sim a mentalidade burguesa, que, com a sua capacidade mobilizadora, incentivou o desenvolvimento de uma sociabilidade capitalista[7] que era apenas embrionária[8] e depois vai se tornando o fundamento das relações sociais locais.

O processo de instauração da utopia autogestionária não se realiza através de “ilhas isoladas” e pressupõem um conjunto de lutas sociais que geram transformação das relações sociais e, simultaneamente, da mentalidade, que é o processo revolucionário. Nada disso emerge na trama do filme (e nem no caso real que foi a sua fonte inspiradora). Por conseguinte, Eden é um filme pseudoutópico e o fracasso da pseudoutopia é derivada da mentalidade burguesa. Isso demonstra que assim como o Rei Midas, tudo que a mentalidade burguesa toca se transforma em coisa, promovendo a coisificação do mundo e gerando sua desumanização. O filme é interessante justamente por alertar a necessidade de se entender a mentalidade burguesa e perceber que o processo de transformação radical e total da sociedade pressupõe uma nova mentalidade e que é preciso superar a naturalização do indivíduo da sociedade capitalista e sua projeção como “natureza humana”.

 

 



* Sociólogo, filósofo, especialista em Psicologia Social e Psicanálise. Autor de diversos livros, entre os quais “Como Assistir um Filme”; “Cinema e Mensagem”; “A Concepção Materialista da História do Cinema”.

[1] Sobre o clima e obras pessimistas nesse período, cf. VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2018.

[2] VIANA, Nildo. Quem tem Medo da Utopia? Brasil Revolucionário, ano 2, n. 7, dezembro de 1990.

[3] BERNSTEIN, Serge. Utopia e Ucronia: Concepções da Sociedade Futura. Revista Sociologia em Rede[S. l.], v. 6, n. 06, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1182. Acesso em: 2 maio. 2026.

[4] BERNSTEIN, Serge. Ob. Cit., p. 5.

[5] Cf. MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, vol. 1, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

[6] VIANA, Nildo. Nietzsche, Vontade de Potência e Irracionalismo. Revista Fragmentos de Cultura - Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, Goiânia, Brasil, v. 20, n. 5, p. 569–589, 2011. DOI: 10.18224/frag.v20i5.1637. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/fragmentos/article/vi-ew/1637. Acesso em: 2 maio. 2026.

[7] Sobre os conceitos de mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, cf. VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo: Escuta, 2008.

[8] No início havia a “divisão de propriedade” dos dois casais, competição entre eles, etc., mas a chegada da baronesa e suas relações com seus serviçais – mercantilização, por exemplo – e sua ação de apropriação, exercício de violência, etc., aprofundou seu desenvolvimento.

14 de ago. de 2021

O Jovem Karl Marx - Filme sobre o fundador do Marxismo

 O Jovem Karl Marx - Filme sobre o fundador do Marxismo


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Abaixo comentário sobre o filme:


"O Jovem Karl Marx", de Raoul Peck. 

Ficha Técnica: 
Título: Le Jeune Karl Marx (O Jovem Karl Marx). 
Diretor: Raoul Peck. 
País: Alemanha/Bélgica/França 
Ano: 2017. 

Sinopse: O filme apresenta a trajetória de Karl Marx em seu período de juventude, na qual adere ao movimento operário e elabora as bases do marxismo, mostrando os percalços pessoais e embates políticos que o pensador alemão teve que enfrentar. 

COMENTÁRIO: 

KARL MARX NO CINEMA 
Nildo Viana 

O filme “O Jovem Karl Marx” (Raoul Peck, França/Alemanha, 2017) aborda um determinado período da vida de um dos mais conhecidos e polêmicos pensadores da história da humanidade, bem como um não menos controverso militante revolucionário. Marx teve uma vida atribulada, não apenas pela luta política e polêmicas intelectuais, mas também pelas relações pessoais e situações de privação material pelas quais experimentou. A sua obra teve repercussão em círculos políticos e intelectuais restritos e ligados ao movimento operário de sua época e isso se ampliou com a publicação de O Capital e outros processos sociais e culturais, mas ele nunca foi, em vida, um pensador aclamado e reconhecido pelo chamado “grande público” ou pelos hegemônicos no interior da classe intelectual. No final de sua vida, mesmo com a ampliação de sua presença intelectual, ele ainda tinha o reconhecimento que viria a ter posteriormente. 

Quando ele escreveu O Capital, colocou as duas formas pelas quais tentaram minimizar a importância de sua obra: o silêncio e a pseudocrítica. Essas formas se repetem historicamente em relação a outros casos. O silêncio significa fazer de conta que determinada obra ou concepção não existe ou não tem importância e a pseudocrítica é a tentativa de desqualificar a obra ou o autor (e a substituição da ideia pelo ataque pessoal é uma das formas mais baixas e desprezíveis de tentar “ganhar um debate” ou marginalizar um intelectual ou pensador). Apesar disso, a importância real da obra de Marx e o apoio e obra de alguns indivíduos tornaram possível a popularização de sua teoria. No entanto, junto com isso veio a vulgarização e deformação (mais fácil depois que o pensador morre, pois ele não pode, nesse caso, corrigir os seus “intérpretes” e “seguidores”), sendo que a vulgarização é uma tendência da popularização e ela traz em si elementos de deformação. No entanto, há uma deformação mais profunda que emerge com os chamados “intérpretes canônicos” e simplificadores (mais acessíveis do que o pensador em questão), ligados a interesses, como foi o caso das deformações social-democrata, leninista (e derivados: stalinista, trotskista, maoísta, etc.). 

Assim, houve um reconhecimento posterior de Marx, chegando, inclusive, a tornar-se “moda” e “hegemonia” em determinados momentos e lugares (como no capitalismo estatal ou na década de 1970 na América Latina, nos meios políticos e intelectualizados), mas através das versões deformadas do seu pensamento. Marx tornou-se um pensador clássico da sociologia, economia, filosofia, etc. e influente nas mais diversas ciências humanas e até em algumas ciências naturais. Isso se deve, em parte, à sua erudição e força de suas ideias, em parte a apropriação do seu pensamento por diversos setores da sociedade com distintos interesses. Tratava-se, na maioria absoluta dos casos, de um Marx domesticado, mais um cientista ou então um político revolucionário tão banal quanto os demais que povoam o barco imaginário das celebridades de esquerda. 

Nesse contexto, um filme sobre Karl Marx surpreende. E isso mais ainda na atual conjuntura mundial, onde o capitalismo encontra dificuldades em manter o seu atual regime de acumulação (integral) e sua forma política, o neoliberalismo, e que por isso acaba tendo que tomar medidas extremas para combater a desestabilização, assumindo a forma discricionária e executando políticas de austeridade. Numa época em que a hegemonia convencionou não só a descartar Marx em favor de modismos acadêmicos fúteis e superficiais, sob o ridículo rótulo de “pós-modernismo” (pós-estruturalismo) e derivados e semelhantes (multiculturalismo, neoliberalismo, gênero, identidades, etc.), como também, como parte desse processo, desenvolveu fortes tendências que defendem o irracionalismo, a recusa da teoria, o pragmatismo, o praticismo, etc. [...] 

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2 de abr. de 2021

Oportunidade para publicar em coletânea sobre sociologia da cultura e da arte



Os professores Nildo Viana (UFG) e Maria Angélica Peixoto (IFG), estão organizando a obra "Cultura e Sociedade: Contribuições para a Sociologia da Cultura", pela Paco Editorial. Abaixo link para mais informações e procedimentos para enviar proposta de capítulo:

Livro “Cultura e Sociedade: Contribuições para a Sociologia da Cultura” – CHAMADA ABERTA
Resumo da Obra:
A cultura é um dos temas fundamentais das ciências humanas, ganhando especial atenção na antropologia e na sociologia. Uma sociologia especial, a chamada “sociologia da cultura” se dedica a esse tema e suas múltiplas relações, bem como englobando outras sociologias especiais ainda mais específicas (sociologia do conhecimento, sociologia da ciência, sociologia da arte, etc.). Nesse contexto, a obra “Cultura e Sociedade” visa reunir contribuições para tratar do complexo e multifacetado tema da relação entre cultura e sociedade, abarcando reflexões sobre cultura em geral, artes, ciências, cultura popular, entre diversas outras manifestações culturais em sua relação com a sociedade moderna.
Áreas de pesquisa relacionadas ao tema proposto:
Ciências Humanas
Sociologia
Sociologia da cultura
Sociologia da arte
Sociologia do conhecimento
Sociologia da ciência
Organizadores:
Dr. Nildo Viana (Lattes)
Dra. Maria Angélica Peixoto (Lattes)

25 de fev. de 2021

LA DOLCE VITA: CAPITALISMO, FUTILIDADE E INSATISFAÇÃO

 



LA DOLCE VITA:

CAPITALISMO, FUTILIDADE E INSATISFAÇÃO

 

Nildo Viana

 

O renomado cineasta Federico Fellini é o diretor do filme La Dolce Vita (A Doce Vida), de quase três horas de duração lançado em 1960. O filme é uma obra de grande sucesso e foi bem recebido pela crítica, bem como ganhou vários prêmios. O nosso objetivo não é apresentar uma análise do filme e sim extrair do filme aquilo que ele mostra sobre a sociedade capitalista, seja esta ou não a intencionalidade de Fellini[1]. O que apresentaremos aqui é o que o filme mostra e é essa mostração que nos interessa.


TRAILER DE "LA DOLCE VITA".


O filme mostra diversas questões da sociedade atual. O jornalismo sensacionalista e os paparazzi (a origem do termo, inclusive, remete ao personagem do filme chamado Paparazzo), na busca por cobrir a vida das celebridades e acontecimentos pitorescos, como a suposta aparição de Nossa Senhora Aparecida, a dificuldade de comunicação, entre diversos outros aspectos da sociedade capitalista da época, sendo que a maioria deles se reproduz sob forma ampliada na contemporaneidade.

O elemento mais presente do filme, no entanto, é a futilidade que perpassa a vida cotidiana no capitalismo oligopolista transnacional. O modo de vida capitalista se revela um modo de vida fútil[2]. A futilidade acompanha o capitalismo, mas vai se intensificando com o seu desenvolvimento. No início, ela atingia apenas a burguesia (assim como antes a nobreza, sob forma diferente), mas depois da Segunda Guerra Mundial e a emergência do novo regime de acumulação, o conjugado, e do Estado integracionista (supostamente do “bem-estar social”) ela se amplia para os extratos mais elevados das demais classes superiores (intelectualidade e burocracia) e, no caso dos países imperialistas, os estratos mais elevados das classes inferiores. A expansão da mercantilização e, por conseguinte, do consumismo (e a ideologia da “sociedade de consumo” emergia nesse momento), reforçava a futilização da vida social. A mercantilização da cultura é outro elemento que, acompanhado pelo consumismo de bens supérfluos, expressa uma das expressões do modo de vida fútil. Hoje, durante o regime de acumulação integral, esse processo se amplia atingindo em grau mais intenso os extratos mais elevados das classes inferiores no capitalismo imperialista e chega até setores dela nos países de capitalismo subordinado, sob forma marginalizada[3].

Esse aspecto apenas revela mais uma contradição da sociedade capitalista, na qual a satisfação das necessidades básicas vai se ampliando para proporções mais vastas da população, sem poder possibilitar a satisfação das necessidades especificamente humanas, a socialidade e a práxis, que são marginalizadas na sociedade e na vida dos indivíduos. Essas necessidades humanas entram em contradição com as necessidades de reprodução do capitalismo, que exige o trabalho alienado, a mercantilização, a burocratização, a competição social, o que significa a degradação da socialidade (convivência humana) e da práxis (trabalho como objetivação, autorrealização). Sob forma de compensação, a sociedade capitalista gera um conjunto de satisfações substitutas: como o consumismo, o vedetismo, o hedonismo, entre outras coisas. Essas satisfações substitutas, geralmente denominadas como “desejo”, são funcionais para a sociedade e desenvolvimento capitalistas. Assim, o capitalismo une o necessário (a necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor) e o desagradável – a criação de satisfações substitutas (futilidade, consumismo, cultura, tecnologia, etc.) – ao invés de unir o útil ao agradável.

O capital comunicacional tem uma influência nesse processo, pois ele – através da imprensa escrita, TV, rádio – não só é parte da futilização com seus programas, celebridades e produtos culturais, como é incentivador da futilização, do consumismo, e da cultura mercantilizada. Assim, uma grande gravadora não só produz modismos musicais, mas também os divulga e vende, lucrando com isso, fazendo parte da criação, mercantilização e consumo e do constrangimento dos indivíduos para se inserir nesse circuito de consumo passivo. No filme, o vedetismo expressa esse processo. E a atriz Sylvia Rank é expressão máxima desse processo. A fascinação que ela provoca em Marcello mostra bem esse processo. Marcello fica fascinado com Sylvia (e não só ele, sendo que, inclusive, o diretor italiano o agride fisicamente por causa dela). A fascinação é fria, no entanto, tal como se observa na cena em que ele quase acaricia Sylvia, mas não o faz. Ela é um fetiche e não um ser humano, não pode ser tocada. Essa fascinação é como um encantamento, um feitiço, algo externo ao indivíduo e que ele acaba reproduzindo. E toda fascinação, como todo o feitiço, se desfaz e em seu lugar aparece a insatisfação, o que Prokop denomina “tédio”[4]. O jornalismo sensacionalista cria o seu público e este alimenta a “imprensa marrom”, num processo de retroalimentação.


CENA DE MARCELLO E SYLVIA


A Doce Vida mostra justamente a vida fútil que se estabelece na sociedade moderna. As relações amorosas efêmeras de Marcello Rubini (o alter-ego de Fellini, segundo dizem e parece ser), as boates, restaurantes e festas, as bebidas e as casas suntuosas, são expressões desse processo. As relações sociais e as interindividuais perdem a autenticidade e a comunicação é obstaculizada. O mundo das aparências toma conta das relações sociais. Os indivíduos vivem em busca de prazer imediato, do consumo, do sexo, de drogas, e tem até uma cena do filme em que Sylvia Rank, atriz norte-americana, ganha um destaque inusitado ao dançar com um espalhafatoso ator norte-americano ao som do rock and roll[5]. A futilidade perpassa quase todo o filme, desde as primeiras cenas até as últimas. Na primeira cena há o helicóptero carregando a estátua de Jesus Cristo, algo pitoresco, e chamando a atenção das mulheres que tomavam sol de biquini na cobertura de um prédio, bem como Marcello não perdendo a oportunidade de pedir o número de telefone delas. A futilidade se repete na cena seguinte no restaurante no qual Paparazzo, sob solicitação de Marcello, tira uma foto de um casal, sendo que era uma mulher casada e um amante, o que gera confusão e ameaças, até que o personagem principal sai com uma recém-chegada que mostra seu tédio e o busca uma aventura fora da casa noturna. A relação efêmera entre Marcello e Maddalena é apenas uma expressão da futilidade amorosa. A futilidade do consumo se manifesta quando as prostitutas se “encantam” com o carro de Maddalena, bem como se manifesta novamente quando Emma, namorada de Marcello, afirma, na reunião na residência de Steiner, que um dia ele terá uma casa como aquela. A futilidade acompanha todo o filme as últimas cenas apontam para uma festa na casa de um advogado bem-sucedido e termina com os “expulsos” da festa numa praia, curiosos ao encontrarem mais uma aberração (novamente o pitoresco), um “peixe-monstro”, que uma personagem se predispõe a comprar, pois tudo é vendável, assim como a curiosidade sobre coisas pitorescas não é apenas da grande imprensa, mas também das pessoas fúteis (que fornecem audiência para os meios oligopolistas de comunicação).

A futilidade, no entanto, revela seres humanos que possuem suas necessidades básicas satisfeitas, no ilusório “Estado de Bem-Estar Social” (Estado integracionista), mas não suas necessidades especificamente humanas. Na sociedade da futilidade e do consumismo, não há autorrealização, práxis, desenvolvimento da criatividade e potencialidades humanas, nem de autênticas relações sociais, mas apenas aparências, hipocrisia, ostentação, fascinação. Assim, ao lado da futilidade emerge a insatisfação, o “tédio”.

O tema da insatisfação aparece também em todo o filme. Maddalena, quando encontra Marcello na segunda cena do filme, mostra insatisfação e busca uma aventura amorosa para evadir-se. Marcello mostra insatisfação em vários momentos do filme. A inautenticidade de suas relações manifesta isso: Emma, Maddalena, Sylvia, o pai, Steiner, etc. A evasão está sempre presente. Marcello tem dificuldade de concentração e assim o seu projeto de escrever um livro nunca se realiza. A cena na qual ele está num restaurante com sua máquina de escrever é ilustrativa disso. Ora, um restaurante não é o lugar mais adequado para quem quer se concentrar. Ele reclama da música e elementos externos, que são pretextos para sua desistência, o que ocorre quando ele conversa com a garçonete, que lhe desvia para curiosidades sobre a vida alheia.

Porém, a insatisfação se torna muitas vezes insuportável. O modo de vida fútil gera a insatisfação generalizada, a infelicidade completa, e isso leva à vida sem sentido. Uma vida sem sentido, por sua vez, traz o vazio e a ideia do abandono da vida. Assim, o suicídio é outro tema que se repete no filme. O suicídio, como já alertava Marx, tem origem na sociedade, por diversas determinações[6]. No filme, o suicídio é produto do tédio, da insatisfação. A evasão nem sempre funciona. Numa das primeiras cenas do filme, Emma tenta se suicidar tomando remédios. Quando Marcello se encontra em um castelo através de um convite realizado por uma modelo num encontro casual, um dos moradores aponta para uma garota que tentou o suicídio duas vezes e se encontrava encolhida e afastada de todos. O “amigo” de Marcello, Steiner, se suicida e tenta matar seus filhos. O bem-sucedido Steiner se suicidou por causa de sua insatisfação essencial, apesar de estar plenamente satisfeito em suas necessidades básicas e “ter” muita coisa. Erich Fromm, em 1955, já havia diagnosticado o problema da sociedade capitalista durante o regime de acumulação conjugado e mostrado que os países imperialistas eram os campeões de suicídio e uso de drogas[7]. O filme que mostra a futilidade, a evasão, a insatisfação (tédio) também mostra o uso abundante de drogas e o suicídio.

Tem uma parte do filme que ilustra todo esse processo. Trata-se da entrada do pai de Marcello em cena. Marcello revela para Paparazzo que sua relação com o pai nunca teve proximidade, que não conversavam. O reencontro com o pai mantém a superficialidade e logo este afirma que quer conhecer as casas noturnas de Roma. Marcello o leva para uma casa badalada e ao lado do consumo de bebidas aparece a companhia da dançarina, o que se desdobra no fim da noitada no apartamento dela. Aqui temos a futilidade, o consumo, a evasão. Mas, quando Marcello chega no apartamento da dançarina, fica sabendo que seu pai está passando mal. Nesse contexto, temos a insatisfação se manifestando. O pai se mostra insatisfeito e vai embora triste e sem muitas explicações. A euforia da futilidade e evasão é substituída pelo remorso, tédio, decepção, expressões da insatisfação.

Em síntese, uma vida sem sentido, pois é uma vida inautêntica, e suas consequências são apresentadas no filme. A possibilidade de rompimento com a inautenticidade se manifesta no final do filme, quando a garçonete tenta se comunicar com Marcello e ele não entende e volta a ficar com os amigos de festa. Alguns tentaram interpretar o significa do “peixe-monstro” no final o filme. O que o filme mostra é que numa vida fútil e sem sentido, o pitoresco é atraente. Desde a estátua de Jesus Cristo, o aparecimento da santa, passando pelo castelo e a tentativa de evocar espíritos[8], até chegar ao peixe-monstro, temos um retrato da cotidianidade marcada pela futilidade o extraordinário se torna atrativo, mas é sempre externo ao indivíduo. O vazio interno leva à busca de um conteúdo externo. O filme La Dolce Vita mostra que é expressão de uma época e sociedade. O filme é, ele mesmo, expressão dessa vida fútil, pois é uma mercadoria, que envolveu uma diversidade de pessoas e muito dinheiro[9], gerador de “fascinação” e assistido futilmente, bem como gerador de outras mercadorias, tais com música, que posteriormente ganham suportes tecnológicos, como CDs, DVD, etc. A trilha sonora, sob responsabilidade de Nino Rota, gerou o sucesso da música La Dolce Vita, que ganharia diversas versões no decorrer dos anos[10].

Assim, La Dolce Vita mostra a futilização da vida através do consumo e evasão, e suas consequências, a insatisfação, a mortificação, o suicídio. O filme expressa bem o capitalismo oligopolista transnacional nos países imperialistas, ambientado na Itália (o filme é uma produção franco-italiana e por isso conta com atrizes e atores franceses), ou seja, o regime de acumulação conjugado no seu período de estabilidade e expansão. A fascinação pelo vedetismo, a evasão, o consumismo, o hedonismo, e outros aspectos são processos reconhecidos nessa época.

Porém, esse processo se ampliou com a passagem para o regime de acumulação integral, a partir dos anos 1980. A rebelião estudantil de Maio de 1968 e sua crítica da “sociedade de consumo”, da burocracia, da razão instrumental, entre outros aspectos da época, foi, ela mesma, transformada nas interpretações posteriores, em um elogio da futilidade (as interpretações que reduzem o fenômeno e seu alcance a uma questão da juventude, da sexualidade, etc.) e a sua apropriação posteiror pelo pós-estruturalismo já marca uma nova ideologia que faz do “desejo” o elemento central das “novas reivindicações”. Isso não deixa de ser cômico, pois transforma a recusa da futilidade em exigência de mais futilidade. Apesar do fim do regime de acumulação conjugado e do “bem-estar social”, a política cultural, a mercantilização, as ideologias, apontam para reforçar o processo de narcisismo, hedonismo, neoindividualismo, hipersexualidade, futilização da vida. O discurso de que tudo é efêmero, fragmentário, é apenas a forma ideológica sob a qual alguns ideólogos buscam naturalizar o modo de vida fútil que reina no capitalismo contemporâneo. É a época de “drogas e amigos inúteis”, como já apontava o cantor Lobão, que não deixa de mencionar Fellini[11]. A questão é que na época do regime de acumulação conjugado se tratava de décadence avec élégance (decadência com elegância)[12] e agora é décadence sans élégance (decadência sem elegância).

A doce vida é, no fundo, uma vida amarga. É isso que o filme mostra: o que parece ser doce é amargo. O modo de vida fútil domina o capitalismo e futilização da vida gera uma insatisfação crescente que leva à autodestruição ou ao ódio. As manifestações cotidianas e contemporâneas disso são bem visíveis, bem como as tentativas de inúmeros indivíduos em se agarrar a algo, seja o sucesso, a fama, a riqueza e o poder, seja a “identidade”, a “sexualidade” ou qualquer outra coisa para escapar da futilização. Isso, no entanto, essa forma fútil de tentar escapar da futilidade é apenas mais uma manifestação da futilização. Nesse círculo vicioso de futilização e insatisfação crescentes, resta a luta contra a futilidade e suas determinações, a sociedade geradora do modo de vida fútil, o que já é um esboço de sua superação.

 

 



[1] Muitos pensam que o filme é uma “crítica da sociedade do espetáculo” (Cf. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/08/1670950-a-doce-vida-e-uma-poderosa-critica-a-sociedade-do-espetaculo.shtml), mas isso é muito mais uma atribuição de significado do que uma análise fílmica. Atribuição de significado é quando o suposto intérprete atribui ao filme aquilo que ele pensa ou considera independentemente da busca de descobrir o significado original, presente na intencionalidade de quem o produziu, enquanto que a análise fílmica visa descobrir o significado original (sobre isso cf. VIANA, Nildo. Cinema e Mensagem. Análise e Assimilação. Porto Alegre: Asterisco, 2012). A ideia de “crítica” pressupõe uma intencionalidade que o cineasta (ou a equipe de produção) precisaria ter e que isso precisaria estar explícito no filme ou sob outra forma (entrevistas, por exemplo). A atribuição de significado, que é o que fazemos aqui, não é problemática caso seja declarada, como fazemos aqui, mas se torna prolbemática quando se afirma que é a mensagem intencionalmente repassada pelo diretor e demais responsáveis pela produção do filme.

[2] Cf. LEROY, Pierre. O Vento ou a Vida? O Modo de Produção Capitalista como Modo de Vida Fútil. Marxismo e Autogestão, vol. 01, num. 01, jan./jun. de 2014. https://redelp.net/revistas/index.php/rma/article/view/254

[3] Se há a generalização do uso de determinados bens de consumo, como carro e TV, é feito através do processo diferenciado das classes sociais. Por exemplo, no capitalismo subordinado, a TV foi paulatinamente se tornando acessível para as classes inferiores, mas a que era Preto-e-Branco e não a TV a cores, que era adquirida por indivíduos das classes superiores. Com o passar do tempo, se generaliza o acesso à TV a cores, mas novas diferenciações se criam (TV Plasma, LED, LCD, diferenciação de polegadas, smartv, etc. com preços diferenciados e que são consumidas por distintas classes, com as devidas exceções, algumas a custo de sacrifícios por parte de alguns indivíduos). O mesmo ocorre com o carro, alguns usam carros usados (aliás, nos estratos inferiores das classes inferiores, era comum usar TV usada), ou os chamados “populares” desde o antigo “fusca” até as demais versões posteriores.

[4] Cf. PROKOP, Dieter. Fascinação  e  Tédio  na  Comunicação.  Produtos  de  Monopólio  e Consciência. In: FILHO, Ciro Marcondes (org.). Prokop. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1986.

[5] O rock se torna um dos principais elementos no processo de produção capitalista da juventude e criação de um estilo de vida jovem, especialmente a partir dos anos 1950 e tiveram em Elvis Presley e depois The Beatles o auge desse processo, criando inclusive a imagem de “inconformismo” e “rebeldia” para os indivíduos da faixa etária submetida ao processo de ressocialização (cf.: VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015; VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. 2ª edição, São Paulo: Ar editora, 2014; e concepções que apontam para o processo de constituição social e capitalista da juventude há também: LAPASSADE, Georges. A Entrada na Vida. Lisboa: Edições 70, 1975; AVANZINI, Guy. Tempos da Adolescência. Lisboa: Edições 70, 1980).

[6] Cf. MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006. Sem dúvida, não era objetivo de Marx elaborar uma “teoria do suicídio”, mas apenas realizar comentários nos quais aponta alguns elementos sobre esse fenômeno.

[7] FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 2ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

[8] Para quem quiser analisar o filme, uma possibilidade interpretativa é vincular Fellini e seu catolicismo a um questionamento da sociedade da época e aí a motivação dele poderia ser a busca da espiritualidade. Porém, essa é uma possibilidade e somente uma pesquisa mais profunda, incluindo uma biografia de Fellini, sua entrevista (inclusive o filme Entrevista, que possui elementos autobiográficos), aliado a uma análise da sociedade italiana da época (e a força do cristianismo no seu interior nesse período, o significado da democracia cristã e o discurso religioso da igreja nesse período) e uma análise rigorosa do universo ficcional de La Dolce Vita, poderia fornecer elementos para comprovar ou não tal hipótese.

[9] O documentário A Verdade sobre La Dolce Vita (La Verità Su La Dolce Vita ), lançado em 2020, que aponta para a responsabilidade de Fellini e seus gastos financeiros exorbitantes com a produção do filme como responsável pela morte posterior do produtor Giuseppe Amato. Não tivemos acesso a tal documentário, mas há um comentário disponível na internet: BELINCHÓN, Gregório de. A Amarga Verdade de “La Dolce Vita” (https://brasil.elpais.com/cultura/2020-12-14/a-amarga-verdade-de-la-dolce-vita.html).

[10] Cf.: La Dolce Vita: Uma Música, Diversas Versões. Disponível em: https://radiogerminal.blogspot.com/2021/02/la-dolce-vita-uma-musica-varias-versoes.html 

[11] “Sua vida burguesa é um romance/Um roteiro de intrigas/Pra Fellini filmar/Cercada de drogas, de amigos inúteis/Ninguém pensaria que ela quer namorar”

(https://www.youtube.com/watch?v=lv_YdVKvbZs).

[12] Para recordar outra música do mesmo cantor e que também mostra elementos de futilização da vida (https://www.youtube.com/watch?v=p9kW9N71kOU).

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O filme pode ser assistido no aplicativo Telecine, bem como é possível adquirir o DVD, ambos em versão restaurada.