Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar vá ao topo da página e clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.
Mostrando postagens com marcador utopia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador utopia. Mostrar todas as postagens

2 de mai. de 2026

EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 


EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 

Nildo Viana*

 

O filme Eden (Ron Howard, EUA, 2025) é uma curiosa obra cinematográfica. Muitos a qualificariam como uma “utopia”. O nosso objetivo aqui será realizar um breve comentário sobre este filme visando discutir o suposto caráter “utópico” que é atribuído a ele.

Uma sinopse breve do filme assim o apresentaria. “O filme retrata um episódio pouco explorado da história europeia da década de 1930. Um casal alemão decide se estabelecer na ilha de Floreana, nas Ilhas Galápagos, renunciando aos valores que julgavam estar corroendo a humanidade, com o intuito de construir uma existência alternativa em meio à natureza selvagem. A obra aborda temas como a sobrevivência, o mistério e as complexas dinâmicas humanas diante das adversidades, à medida que o ‘ideal utópico’ dá lugar à desconfiança, à violência e ao colapso moral. A natureza humana é mais forte do que a utopia”.

Porém, esses lugares-comuns são falsos e não expressam o real significado do filme. O filme se baseia numa história real, que foi a do casal alemão Friedrich Ritter e Dore Strauch. Eles moravam em Berlim, e em 1929 abandonam a Alemanha para ir para uma ilha distante. A razão da aventura é que Ritter era um crítico da sociedade moderna, um adepto da filosofia nietzschiana, considerado que o mundo moderno estava em decadência por causa dos valores corrompidos que o dominam. O clima pessimista de 1929 (e que foi retratado em várias obras, a começar pelo livro de Oswaldo Spengler, A Decadência do Ocidente)[1]. Ritter queria voltar, assim, ao mundo natural, no qual a “luta pela vida” e a “vontade de poder” se manifestasse integralmente.



O filme reproduz a vida do casal na Ilha Floreana, na qual eles viviam e ele escrevia seu livro e cartas para os jornais europeus. A trama começa quando um outro casal chega na ilha a partir da leitura das cartas de Ritter, com o objetivo de se instalar e contribuir com a formação do “novo modo de vida”. Porém, o novo casal é mal-recebido pelos moradores originários (o casal alemão, pois a ilha era desabitada). Ritter os colocam num lugar inadequado para sua sobrevivência e longe dele e sua esposa. Logo depois chega uma suposta “Baronesa”, chamada Eloise von Wagner, que vem acompanhada de empregados/amantes e objetiva construir um hotel, denominado “Hotel Hacienda Paradiso”. O conflito original entre os dois primeiros casais, que não era muito forte devido ao fato de que o segundo casal era mais amistoso, acaba sendo atingido por essa chegada, pois a Baronesa acaba incomodando a ambos e gera conflitos entre eles como forma de conseguir atingir seus objetivos. O resto do filme é apenas a expressão da tragédia e de conflitos violentos.

É nesse contexto que emerge a interpretação segundo a qual a ida para a ilha tinha a intenção de realizar uma utopia e que o fracasso desse projeto ocorreu por causa da “natureza humana”. Assim, a ilha não seria a responsável pelo fracasso, mas a própria essência humana. Nesse sentido, o filme seria considerado “utópico”, mas realista, e isso explicaria o fracasso.

Essa interpretação é totalmente equivocada. Em primeiro lugar, nem a ilha, nem o filme, eram “utópicos”. Claro que o entendimento disso pressupõe a compreensão do que é utopia. Tal como colocamos em outro lugar[2], “a utopia significa uma negação da sociedade presente, uma crítica dela, e, simultaneamente, um projeto de uma nova sociedade”[3]. Nesse caso, basta perceber que Ritter não é um crítico do capitalismo e sim de aspectos do capitalismo. A sua inspiração em Nietzsche demonstra isso. O comportamento de Ritter e sua esposa em relação ao casal Margret também demonstra que não estão interessados em uma sociedade radicalmente diferente. O casal Magret é o que mais se aproximaria de uma concepção utópica. Porém, a ideia original não foi deles e sim do casal alemão que chegou pioneiramente na ilha. A Baronesa, por sua vez, possui apenas um projeto capitalista e comercial visando explorar a ilha no sentido financeiro. Em síntese, os personagens principais não são utópicos e os demais habitantes da ilha tem um casal que tem proximidade com um ideal utópico e uma baronesa e seus serviçais que é antagônico a qualquer utopia.

Sendo assim, o filme não traz uma utopia. O que ele traz então? Uma pseudoutopia burguesa inspirada em Nietzsche, ou seja, que vem apenas para defender o imoralismo do “super-homem”, “além do bem e do mal”. Uma pseudoutopia é “uma falsa utopia.  A razão disso se encontra no fato de apontar para uma sociedade do futuro que seria melhor, mas estruturalmente é a mesma sociedade, na qual as “melhorias” podem ser duvidosas, problemáticas, pequenas alterações, etc.”[4].

Em segundo lugar, a contraposição que alguns assistentes para explicar o fracasso da experiência pseudoutópica é que isso ocorre não por causa da ilha e sim devido à “natureza humana”. No fundo, essa ideia de “natureza humana” é ideológica. Marx já criticava autores como Jeremy Bentham[5], que projetava o indivíduo de sua época e sociedade como sendo a “natureza humana”. Os indivíduos que chegaram na ilha de Floreana não eram expressão da “natureza humana” e sim de seres humanos socializados e formados pela sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa. Alguns, com maior intensidade, como a baronesa, outros, com menor intensidade, como o casal Margret. A inspiração de Ritter em Nietzche, o “filósofo do imperialismo” e um dos grandes legitimadores do capitalismo é suficiente para se demonstrar isso[6]. Nem sequer Rousseau era a inspiração. Muito menos Marx ou qualquer autor anticapitalista. O egoísmo de Ritter e da Baronesa mostra o seu vínculo com os sentimentos antipáticos gerados pelo capitalismo, bem como seus valores (possessividade, individualismo, etc.).

O que derrota a experiência é o mesmo dilema que o mundo enfrenta atualmente e nada tem a ver com “natureza humana” e sim com sua recusa: conflitos de interesses, competição, ambição, elementos característicos do capitalismo. Os indivíduos que chegam na ilha não são vazios, são portadores de sentimentos, concepções e valores, que, por sua vez, expressam a mentalidade burguesa. Logo, o que gerou o fracasso da experiência pseudoutópica não foi a natureza humana e sim a mentalidade burguesa, que, com a sua capacidade mobilizadora, incentivou o desenvolvimento de uma sociabilidade capitalista[7] que era apenas embrionária[8] e depois vai se tornando o fundamento das relações sociais locais.

O processo de instauração da utopia autogestionária não se realiza através de “ilhas isoladas” e pressupõem um conjunto de lutas sociais que geram transformação das relações sociais e, simultaneamente, da mentalidade, que é o processo revolucionário. Nada disso emerge na trama do filme (e nem no caso real que foi a sua fonte inspiradora). Por conseguinte, Eden é um filme pseudoutópico e o fracasso da pseudoutopia é derivada da mentalidade burguesa. Isso demonstra que assim como o Rei Midas, tudo que a mentalidade burguesa toca se transforma em coisa, promovendo a coisificação do mundo e gerando sua desumanização. O filme é interessante justamente por alertar a necessidade de se entender a mentalidade burguesa e perceber que o processo de transformação radical e total da sociedade pressupõe uma nova mentalidade e que é preciso superar a naturalização do indivíduo da sociedade capitalista e sua projeção como “natureza humana”.

 

 



* Sociólogo, filósofo, especialista em Psicologia Social e Psicanálise. Autor de diversos livros, entre os quais “Como Assistir um Filme”; “Cinema e Mensagem”; “A Concepção Materialista da História do Cinema”.

[1] Sobre o clima e obras pessimistas nesse período, cf. VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2018.

[2] VIANA, Nildo. Quem tem Medo da Utopia? Brasil Revolucionário, ano 2, n. 7, dezembro de 1990.

[3] BERNSTEIN, Serge. Utopia e Ucronia: Concepções da Sociedade Futura. Revista Sociologia em Rede[S. l.], v. 6, n. 06, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1182. Acesso em: 2 maio. 2026.

[4] BERNSTEIN, Serge. Ob. Cit., p. 5.

[5] Cf. MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, vol. 1, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

[6] VIANA, Nildo. Nietzsche, Vontade de Potência e Irracionalismo. Revista Fragmentos de Cultura - Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, Goiânia, Brasil, v. 20, n. 5, p. 569–589, 2011. DOI: 10.18224/frag.v20i5.1637. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/fragmentos/article/vi-ew/1637. Acesso em: 2 maio. 2026.

[7] Sobre os conceitos de mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, cf. VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo: Escuta, 2008.

[8] No início havia a “divisão de propriedade” dos dois casais, competição entre eles, etc., mas a chegada da baronesa e suas relações com seus serviçais – mercantilização, por exemplo – e sua ação de apropriação, exercício de violência, etc., aprofundou seu desenvolvimento.

12 de fev. de 2011

O Público e o Privado no Edifício Master


O Público e o Privado no Edifício Master
Nildo Viana

O Documentário dirigido por Eduardo Coutinho, Edifício Master, possui um caráter social muito interessante. Ele mostra entrevistas com pessoas que falam de sua vida cotidiana. Porém, por detrás da mera narração individual da vida cotidiana é possível perceber o espaço público e o social presente nestas narrativas sem que isso seja imediatamente perceptível. Nosso objetivo é fazer uma análise, de cunho sociológico, sobre o material deste documentário. Isto quer dizer que abordaremos não os aspectos técnicos e formais, e sim a manifestação de relações sociais nesta obra cinematográfica.

De Piaget a Pinochet

O Edifício Master fica no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, capital. Ele está localizado a um quarteirão da praia, tem 276 apartamentos conjugados distribuídos em 12 andares. Cada andar possui 23 apartamentos. Na época em que o documentário foi produzido, havia um total de 500 moradores. A equipe alugou um apartamento por um mês e filmou durante uma semana. O documentário não é sobre a administração do prédio, mas isso aparece em alguns momentos. Sérgio, o síndico reeleito, disse que seu objetivo era tornar o prédio “bonito, digno, decente” e “conseguiu”. “Eu uso muito Piaget, quando não dá certo, parto para Pinochet”, diz ele, revelando que sua estratégia é educativa e, quando esta falha, passa a ser repressiva. A afirmação deixa claro o caráter ditatorial que a administração assume ocasionalmente. A existência de uma ditadura revela a ocorrência de conflitos. O Edifício Master é um palco de conflitos sociais.

A entrevistada Vera diz que os conflitos eram bem maiores, havendo casos de suicídio, mortes e prostituição. Com a nova administração, o prédio tornou-se familiar. Maria do Céu narra as noitadas que existiam na portaria e os conflitos que ocorriam. No fundo, o que as entrevistas revelam é um espaço conflituoso, tanto na esfera privada (apartamento) quanto na esfera pública, e nesta os conflitos são mais intensos e envolvem até mesmo a polícia, sempre solicitada naquela época, segundo a entrevistada. A nova situação diminui os conflitos. Este é o caso de muitos edifícios nas grandes cidades, marcados por conflitos mais ou menos intensos, vivências dispares e pelo papel da administração de gerir o turbilhão social cercado por concreto.


O Público no Privado

As entrevistas mostram narrativas de inúmeras pessoas falando de sua vida privada. O relato da solidão é realizado por Esther, Daniela, Henrique e, em alguns outros casos, em que fica subentendida. Isto revela tão-somente o isolamento das grandes cidades, mesmo quando as pessoas moram lado ao lado. Nestas cidades, a separação e o isolamento provocam o desconhecimento dos próprios vizinhos. O indivíduo passa a viver socialmente nas relações de trabalho, estudo e na própria moradia, mas não no círculo mais amplo do prédio e da vizinhança. A especialização e a divisão social do trabalho criam verdadeiros abismos entre os indivíduos, gerando gostos, concepções e valores distintos, que dificultam a comunicação. Outro elemento que pode ser revelado pela análise é que a esfera privada foi constituída socialmente. A solidão é um produto social. Vizinhos existem, são fisicamente acessíveis, mas não há comunicação. Em muitos casos, não há desejo de comunicação. Daniela, por exemplo, diz que pode ser “feio”, mas fica contente em subir e descer sozinha do elevador, não vendo ou sendo vista por ninguém. Daniela não sabe que este sentimento é mais comum do que ela pensa, não sendo mera característica individual.

Outro exemplo da produção social da esfera privada é visível nos relatos do passado dos entrevistados, principalmente no que se refere à família, mostrando como que as pessoas foram parar naquele lugar, os seus dilemas e traumas, bem como a busca do emprego, da sobrevivência, provocando a mudança de local de moradia. A família e o trabalho assumem grande importância nas narrativas justamente por serem determinantes do passado e/ou do presente. Mas a rua também faz parte dos relatos, sendo geralmente apresentada como local de lazer ou de manifestação da violência.

A família pode ser superprotetora, ausente, repressiva. Nos relatos, estas três possibilidades, entre outras, estão dadas. O indivíduo entrevistado que cita a família foi constituído em parte a partir destas relações familiares e de outras relações sociais, tal como os demais indivíduos que a compõem, bem como seus pais e assim sucessivamente. A idéia comum de que a família é a responsável única pela formação dos indivíduos ou que é a “célula” da sociedade, se revela equivocada por não perceber que ela mesma foi produzida socialmente.

O trabalho, por sua vez, pode ser uma busca, um refúgio, uma necessidade, um aspecto marcante na vida das pessoas. A pessoa trabalhadora pode ser um camelô, porteiro, professora, uma prostituta, um balconista, técnico de futebol, entre outras possibilidades. Para Maria Pia, “não existe pobreza” e se existe pobre é porque “não quer trabalhar”. Esta visão que reproduz a concepção do trabalho como aquele que “dignifica o homem” – mesmo se baseado na exploração e na alienação, ou, como diz Marx, fazendo o indivíduo fugir dele como o diabo foge da cruz – é reproduzida e manifesta a identificação de uma empregada doméstica com o seu trabalho alienado.

A Arte como Sublimação

Daniela diz: “Eu tenho problemas de neurose e sociofobia”. Ela coloca que gosta de escrever, pois funciona como “válvula de escape”. Em termos psicanalíticos, poderíamos dizer que o ato de escrever poesia ou pintar um quadro pode significar uma sublimação ou uma satisfação substituta. No Edifício Master, locus do isolamento e da solidão de uma sociedade individualista, conflituosa e repressiva, muitos usam a arte como forma de realização, de satisfação substituta, de sublimação. E, mais do que isso, revelam uma riqueza artística que muitas vezes nem sequer percebem, ou então se submetem aos cânones dos componentes do “campo artístico”, segundo expressão do sociólogo Bourdieu, e desconhecem o valor artístico de suas produções. Daniela, novamente, é exemplar, ao afirmar que seu quadro “A Floresta do Meu Desespero”, que trata, segundo ela, de paranóia e desamor, é “esteticamente ridículo”. Na verdade, nada tem de ridículo e possui uma imensa riqueza artística, de muito maior valor do que diversas obras consagradas. O simbolismo, que ela diz lhe atingir profundamente, apresenta a floresta como espaço ambíguo, no qual há arborização, oxigênio, aventura, enigma, mas também terror, tal como nas histórias infantis. O quadro mostra “os olhares da selva de pedra”, expressando “muita paranóia”, “invasão”, vigilância. No fundo, a floresta é a metáfora da cidade tal como percebida por Daniela.

Outros mostram grande envolvimento com a arte, como Nadir e Henrique. Alguns possuem um envolvimento mais intenso, através da produção artística ou do trabalho profissional com arte. Este é o caso de Fernando José, ator de várias novelas e filmes, Suze que foi dançarina, Eugênia que é escritora e poetisa. Há também os quadros de Laudicéia e a música de Paulo Mata. O caso de Jasson é um dos mais interessantes, principalmente o samba que ele compôs e foi gravado nos anos 1960, “Favela”. Um samba que fala da luta diária e do sofrimento dos favelados, mas abre espaço para a esperança. O favelado “sofre de dia, mas samba de noite e é feliz”, situação análoga ao dos moradores-artistas do Edifício Master.

Opressão e Utopia

Alguns entrevistados mostram seu descontentamento com a cidade, especialmente com Copacabana. Esther diz que “Copacabana é violenta”; Maria Regina diz que “não gosta de Copacabana”. Daniela compõe uma frase que merece ser citada, no momento em que afirma que a aglomeração típica de Copacabana a deixa estressada: “Não sei se são pessoas demais ou calçadas muito estreitas ou se é uma fusão desagradável dos dois elementos”. Marcelo, por sua vez, diz que a diversidade de pessoas no edifício não incomoda, mas a “concentração é opressiva” e as ruas são marcadas por crianças cheirando cola, prostitutas, michês, traficantes. No fundo, o que este e outros entrevistados mostram é o caráter opressivo do aglomerado urbano, em um contexto desfavorável, ampliando ainda mais a opressão.
Mas resta a persistência da utopia e ela, embora não assumindo caráter coletivo e amplo, mostra o desejo do novo. Se a “solidão machuca muito” (Esther), se a violência está presente no cotidiano, se os males cercam os moradores de todos os lados, há também o desejo de mudança. Fabiana, por exemplo, conta uma tentativa de superar o isolamento. Ela afirma que sempre ouvia a voz de uma criança que mora no andar de cima e sua mãe chamando-a pelo nome, Tainá. Passou a querer conhecê-la e falar com ela. Também revelou o desejo, ao ver crianças brincando no prédio, de perguntar se alguma se chamava Tainá, mas não o fez “por vergonha”. Neste caso, o desejo de superação do isolamento existe. Alessandra, outra entrevistada, diz que não gosta de trabalhar e gostaria de ficar na “mordomia”, que seria “acordar tarde e brincar com a filha”. Ela diz que quem morre está melhor, pois para de sofrer. O desejo de fugir da opressão e a vontade de viver uma vida diferente, se manifesta no que gostaria de fazer e na própria idéia de morte. A arte também é outra forma de sair da realidade, mostrando o desejo de outra realidade. A festa de aniversário que os vizinhos fazem para Geicy é outra forma de romper com o isolamento.

A riqueza das narrativas é visível. Outras interpretações poderiam ser feitas, outros aspectos poderiam ser colocados, bem como outras narrativas, tais como as de Carlos, Rita, Lúcia, Luiz, Roberto, Cristina, Dalva, etc. As interpretações destas narrativas são derivadas do encontro ou desencontro do intérprete com os entrevistados. Esta é a mensagem do samba “Favela”: “só vendo a lua de perto da janela, a gente vê como ela é bela”. A proximidade é fundamental e a lua é metáfora para favela, tal como se vê em outro trecho: “só quem vive na favela, reconhece os encantos dela”. A proximidade pode mostrar que não há encenação, mas drama real, sentido na carne de cada um. A vida no Edifício Master manifesta o problema social e humano geral: “Eu sei o que eles vivem, pois eu também vivo lá”.

_________________________
Artigo publicado originalmente em:

VIANA, Nildo . O Público e o Privado no Edifício Master. Sociologia, Ciência e Vida, v. 01, p. 72-75, 2007.

Para ver uma versão ampliada e não publicada, por questão de tamanho, clique aqui.

8 de fev. de 2011

A Utopia no Universo Fictício de Léo Joannon

Imagem de Abertura do filme "Utopia"

A Utopia no Universo Fictício de Léo Joannon

Nildo Viana

O texto abaixo foi publicado originalmente na Revista Espaço Acadêmico (clique aqui para acessar). A versão abaixo apresenta fotogramas que ajudam a compreender o texto. É possível aumentar o tamanho do texto indo no final e clicando no sinal de mais (+).

A Utopia no Universo Fictício de Léo Joannon - Nildo Viana

Posts Relacionados:

  • Filmes - Breves Comentários
  • 7 de mai. de 2009

    A Utopia no Universo Ficcional de Léo Joannon

    http://www.espacoacademico.com.br/096/96esp_viana.htm


    A Utopia no universo ficcional de Léo Joannon

    Nildo Viana

    “As utopias não são mais que verdades prematuras”
    Lamartine

    A utopia pode ser compreendida como um projeto de uma sociedade futura no qual se realiza a felicidade humana. Ela pressupõe um momento negativo e um momento afirmativo. O momento negativo consiste na crítica da sociedade existente e o momento afirmativo se revela no projeto de uma nova sociedade. A utopia, sendo um projeto, é um sonho, um plano, um desejo, voltado para o futuro. Utopia e futuro são inseparáveis. Pensar a utopia é pensar um futuro radicalmente diferente do presente. A utopia pode se manifestar enquanto ficção ou enquanto proposta política concreta. No presente artigo focalizaremos a manifestação da utopia em um filme de Léo Joannon, que expressa um universo fictício cujo tema principal é o sonho de uma sociedade radicalmente diferente.
    A primeira manifestação mais elaborada de utopia ocorreu com a obra de Thomas Morus (1980). Em A Utopia, Morus realiza uma crítica da sociedade inglesa de sua época na primeira parte e descreve uma ilha chamada Utopia, criando este nome, e cuja organização social seria oposta à primeira. O momento negativo e o afirmativo estão presentes na estrutura da obra, bem como o desejo de sua realização, pois tal como Morus termina a obra, “aspiro, mais do que espero” (Morus, 1980, p. 155). Assim, “um estado de espírito é utópico quando está em estado de incongruência com o estado de realidade no qual ocorre” (Mannheim, 1986, p. 216).
    Porém, a utopia não é desejada por todos, ela é desejada apenas por aqueles que estão insatisfeitos com a sociedade existente e cuja insatisfação assuma uma certa radicalidade. A utopia concreta, ou seja, realizável, é uma “consciência antecipadora” (Bloch, 2005) quando possui agentes concretos, reais, para sua realização, tal como apontado por Marx. Para Marx, o projeto de transformação social é interesse do proletariado, que não apenas aspira como tem o potencial de concretizar a constituição de uma nova sociedade, o “autogoverno dos produtores” (Marx, 1986). A insatisfação atinge a todas as classes na sociedade burguesa, inclusive a própria burguesia, mas esta “se sente à vontade em sua alienação”, pois sabe que é dela que retira sua força e poder (Marx, 1979). O proletariado, no entanto, é a própria negação da sociedade burguesa, e, por conseguinte, é o agente da realização da utopia (embora Marx não use esta palavra).
    Para Ernst Bloch, o grande teórico da utopia, esse projeto de nova sociedade se manifesta nas múltiplas vivências humanas, inclusive na arte. Este é o caso da leitura, pois “quanto mais cinzento o cotidiana, tanto mais coisas coloridas se lêem” (Bloch, 2005, p. 397). Citando Pudovkin, cineasta russo, Bloch diz que o cinema usa a realidade para criar “outra realidade”. A arte é uma expressão figurativa da realidade e se manifesta sob diversas perspectivas de classe (Viana, 2007). Neste contexto, as obras de arte que manifestam a perspectiva do proletariado podem ser utópicas. O filme, devido suas determinações, é a menos utópica das artes, mas carrega em si elementos utópicos e também produz utopias.
    A obra de Thomas Morus era uma manifestação utópica sobre a forma de ficção. Outras obras fictícias também eram utópicas, tal como A Cidade do Sol, de Campanella (1984), entre outras. Na produção cinematográfica isto é muito mais raro. Poucos filmes manifestaram utopias. E muitas vezes com ambigüidades, tal como A Praia, Danny Boyle (EUA, 1999). O mais comum é a manifestação de previsões sombrias para a sociedade do futuro, sendo mais ucronias do que utopias [1]. Este é o caso de filmes como 1984, Michael Radford (Inglaterra, 1984); Rebelião no Século 21, Charles Band (EUA, 1990); THX 1138, George Lucas (EUA, 1971); Matrix, Andy e Larry Wachowski (EUA, 1999), entre inúmeros outros. A razão de ser deste fenômeno está no próprio caráter da produção fílmica, coletiva e com custos elevados, o que produz a supremacia do capital cinematográfico em sua produção e, para este, não interessa a utopia. Além disso, aqueles que produzem obras cinematográficas (diretores, roteiristas, etc.) não estão entre os setores desprivilegiados da sociedade e sim aos setores privilegiados. Além disso, o risco de uma descrição de uma futura sociedade sem conflitos, competição e outros elementos característicos da sociedade moderna correria o sério risco de fracasso de bilheteria e reconhecimento. Apenas através de uma enorme criatividade o filme não seria considerado desinteressante até para os assistentes potencialmente ou conscientemente utópicos.
    Porém, apesar destes obstáculos e devido às contradições do capital cinematográfico e idiossincrasias dos agentes de produção fílmica, algumas vezes a utopia apareceu nas telas de cinema. Este é o caso do filme Utopia, Leo Joannon (1951) [2]. Obviamente, que tal tema teve que aparecer sob a forma de comédia e tendo como estrelas principais Oliver Hardy e Stanley Laurel, mais conhecidos como o Gordo e o Magro. O filme é uma expressão figurativa da realidade, e, portanto, remete a ela, seja realizando sua reafirmação ou sua negação. Porém, a reprodução fílmica da realidade, por mais conservadora que seja, acaba mostrando ela, mesmo a contragosto. A reprodução fílmica da realidade expressa uma perspectiva e, além disso, mostra de determinada forma a realidade social e, assim, pode possibilitar reflexões que vão além do próprio filme.
    O filme começa mostrando o sonho de uma outra sociedade sem as mazelas da sociedade atual. Afinal, “quem nunca sonhou em conhecer um paraíso”, diz a legenda inicial do filme. Este é o tema do filme, o sonho de um lugar paradisíaco, um lugar sem os problemas que nos defrontamos na nossa sociedade. Porém, só tem sentido haver sonho com outra sociedade no interior da atual sociedade e através de sua recusa. Esta recusa da sociedade moderna, capitalista, se apresenta em vários momentos do filme, tal como quando os personagens mostram suas motivações para querer fugir deste mundo ou então se mostra a situação na qual se encontravam, ou, ainda, no início, quando os protagonistas vão receber sua herança (de um deles, Stan Laurel) e são enganados por advogados desonestos.
    A cena cômica mostra as trapalhadas de Oliver Hardy e Stan Laurel e chega o momento de solicitar a herança. Três grandes pacotes de dinheiro são apresentados, mas, paulatinamente vão sendo retirados pelos advogados, para pagar os impostos, taxas, multas, honorários. Os advogados dizem que já calcularam tudo para “economizar tempo”. A linguagem dos advogados revela a lógica capitalista do cálculo racional do tempo e do dinheiro e também a competição e valores dominantes, que fazem com que eles não tenham pudor em enganar dois inocentes herdeiros. Restam poucas notas no final das contas. Os advogados, no entanto, consolam o herdeiro dizendo que há ainda uma ilha e um iate.
    Eis que os protagonistas partem e gastam seus últimos centavos, o que restou da herança, com a taxa da doca e impostos, ficando sem dinheiro nenhum. Depois de mais algumas trapalhadas, os dois partem de barco rumo à ilha herdada. Outros personagens são apresentados, tal como Antoine, que não consegue entrar em nenhum país por não ter passaporte (e não tem passaporte por não conseguir entrar em nenhum país...), produto da irracionalidade da burocracia moderna. O diálogo entre o homem sem passaporte e o representante da lei é, simultaneamente, cômico e revelador.
    O outro personagem é um imigrante que busca ir para a Itália, seu país de origem, mas não tem dinheiro para comprar a passagem. Este personagem entra clandestinamente no pequeno barco de Laurel e Hardy e o homem sem passaporte é indicado como mecânico pelo capitão de outro barco. No alto mar, depois outras tantas trapalhadas, os protagonistas descobrem que o mecânico é apenas um cozinheiro e que há um clandestino. Neste momento, os personagens demonstram seu descontentamento e seus sonhos. A viagem para a ilha é como “cabular aula”, ou seja, possui a sensação de liberdade. O desejo de liberdade em contraposição à imposição escolar, algo que seria uma “delícia”, é reforçado por outras comparações com aspectos da sociedade moderna, além da escola. A escola aqui aparece como metáfora da sociedade. A idéia de “matar aula” expressa a fuga de uma instituição repressiva, com suas imposições, e a afirmação de que todos estão “matando aula”, mais ou menos, revela que eles fogem da sociedade repressiva. Hardy questiona o que Giovanni, o clandestino, cabula e assim todos mostram sua motivação e apresentam aspectos da sociedade moderna que recusam. Giovanni diz que está “cabulando” o mundo, “todos sempre me dizem o que fazer e como fazer”. Laurel e Hardy dizem que cabulam os impostos e Antoine diz que “o mundo todo pode ser o país de um homem”, “mas para mim as portas estão trancadas”.
    Os personagens se livram dos impostos, da burocracia, da nacionalidade. Imaginam uma ilha com palmeiras e flores, até a tempestade atingir o pequeno barco e depois de muitas peripécias, os personagens desembarcam num atol. Neste, começam a sobreviver e rompem com as hierarquias, já que Hardy comandava tudo até desembarcarem no atol, e Antoine passa a exigir que ele acenda o fogo e Giovanni limpe o peixe.
    Na hora da refeição, Hardy lê para os demais um livro que estava no barco: Robinson Crusoé. Eles começam a organizar a produção e graças à existência de água abundante, puderam realizar o processo de produção e reprodução da vida material, mesmo usando técnicas agrícolas rudimentares, ironicamente chamadas de “modernas” no filme.
    A ilha teria se tornado um “paraíso”. Mas faltava algo nesse paraíso: Eva. E é neste momento que um novo personagem aparece: Cherie L’Amour. Ela acaba de passar em um teste para ser cantora na boate Cacatua, a mais importante de Papete (Haiti), no mesmo dia do seu casamento com o Tenente Jack Frazer. Este é informado por ela da aprovação no teste e ele lhe censura, pois esperava “devoção total” da futura esposa e a discussão se torna cada vez mais intensa, já que ela argumenta que ele fica até 10 meses fora devido o trabalho.
    Nesta cena, um outro aspecto negativo da sociedade moderna é apresentado: o casamento e a opressão feminina. O casamento não se concretiza e Cherie foge em um navio e acaba indo parar no atol K. A sua chegada produz novas ações cômicas dos personagens que buscam impressioná-la, mas esta parte se encerra com a chegada do navio do Tenente Jack Frazer, cuja missão seria mapear a ilha e ao encontra Cherie, tenta convencê-la, sem sucesso, de voltar. Porém, a descoberta de urânio na ilha marca uma mudança no rumo da história. A ilha sendo rica em urânio seria cobiçada por diversas nações. Eis que aparece o problema a qual nação pertence a ilha. Frazer pergunta quem desembarcou primeiro na ilha, pois isto determinaria a que país pertence a ilha. Os quatro habitantes dizem que a ilha pertence a eles, o que Frazer concorda, pois eles seriam os proprietários, mas a ilha tem que ter um país. E pertencendo a um determinado país, terá que respeitar as leis dele, tal como a lei de imigração, impostos, comércio, ou seja, tudo do que eles fugiam. Eles pensam em dizer que os quatro desceram juntos, mas Laurel diz que não se deve mentir e Hardy, espertamente, concorda, pois o primeiro a descer foi justamente Antoine, o homem sem nacionalidade. Isto promove uma confusão completa e se cria uma comissão internacional para definir a qual nação pertence o “Atol K”. Para evitar isto, os personagens resolvem criar um governo para salvar a ilha. Um “governo bem pequeno” e cuja constituição forma um regime com poucas leis, sem passaportes, sem prisões, sem impostos. A recusa da sociedade moderna fica ainda mais explícita com o que Hardy acrescenta ao final [3]: “vou acrescentar: sem leis e sem dinheiro”.
    Eles escolhem Hardy como “presidente” e os demais, com exceção de Laurel, que ficou como “o povo”, formam o gabinete. Porém, um país sem leis, sem exigência de passaporte, entre outras características, não só se torna muito atrativo como também permite que qualquer um possa entrar nele. A imprensa divulga que “Crusoelândia libera imigração” e é “uma ilha sem leis”. Isso faz com que uma multidão se mude para a ilha e a transformam radicalmente.
    Neste processo, a ilha sem lei acaba atraindo pessoas de todos os tipos e exploração de urânio. Isso logo promove confusões. Um dos novos habitantes da ilha cria uma confusão dizendo que quer Cherie e isto promove uma reunião dos membros do “governo” que resolve mudar as regras do jogo, constituindo leis, ordem e impostos.
    Estas mudanças provocam uma reação da população e comandados por Alecto, o criador da confusão, que se torna o novo presidente, eles são condenados à forca. Cherie é poupada devido ao interesse de Alecto e consegue pedir ajuda para o Tenente Frazer, bem como tenta ajudar na fuga de seus amigos. Na hora do enforcamento, depois de uma tentativa de fuga mal sucedida, uma tempestade começa e logo o atol desaparece com a mesma rapidez com que havia aparecido, fazendo todos fugirem com os barcos, menos os descobridores da ilha, que conseguem flutuar com a madeira que era o suporte para o enforcamento. O Tenente Frazer chega e resgata os cinco.
    Após isto, há o retorno à vida antiga e Cherie se casa com Frazer, reproduzindo o conflito entre ambos, Giovanni consegue voltar para a Itália, onde ao invés de “construir palácios de mármore” passará o resto da vida fazendo cercas e Antoine tenta entrar em um país usando a estratégia de entrar numa jaula de animal para conseguir isso, tal como no início do filme no qual entrou numa jaula de macacos, e acaba sendo devorado por um leão.
    Assim, o final do filme mostra o fim do belo sonho utópico dos personagens. O casamento com suas contradições, o trabalho desgastante e repetitivo, a morte dos mais pobres e sem nacionalidade. O modo de vida anterior é restaurado para os personagens e seus problemas permanecem. Aqui se mostra o fim de um sonho e a continuação de um pesadelo. Porém, ainda restava uma esperança: Laurel e Hardy são levados para sua ilha, onde eles pensavam que seus problemas haviam acabado e que ninguém mais iria mandar neles, o que revela a preocupação com as relações sociais da modernidade. Porém, o novo sonho logo se desfaz, pois a ilha foi tomada pelo governo, por “falta de pagamento de impostos” e até os suprimentos doados por Frazer são levados devido à multa pelo atraso do pagamento dos impostos. O final do filme mostra o fim definitivo do sonho utópico de uma vida sob outras relações sociais. Laurel e Hardy perdem a ilha e terão que se reintegrar na sociedade capitalista, tal com os demais personagens.
    O filme, apesar disso, pode ser considerado utópico e não apenas um filme que tematiza a utopia. Isto tem sentido se notarmos que mesmo após o fim do sonho, há a reafirmação da crítica da sociedade capitalista, que produz relações conflituosas e opressão (casamento de Cherie e Frazer), o trabalho alienado (Giovanni), a morte por não ter nenhuma chance graças até mesmo à falta de nacionalidade (Antoine) e perda da ilha para o governo (Laurel e Hardy).
    A recusa da sociedade capitalista está presente em todo o filme e sua capacidade de destruir os sonhos utópicos, pois foi justamente a invasão de Crusoelândia e o governo que impediram a manutenção de novas relações sociais. Sem dúvida, o final é pessimista, já que a utopia não se realiza, mas também é crítico, já que mostra o governo como aquele que impede sua realização.
    Desta forma, o filme apresenta o momento negativo, a crítica da sociedade capitalista, realizada na tela pelos setores mais desfavorecidos da população, e o momento afirmativo, embora incipiente, através da idéia de liberdade e cooperação. A utopia do Atol K é uma utopia abstrata que mostra a necessidade das utopias enquanto reinar a insatisfação com a sociedade presente.
    Porém, é possível extrair um significado mais profundo em todo este processo. A utopia que fracassa no filme de Joannon é aquela que Bloch denomina “utopia abstrata”, ou seja, aquela que não apresenta os meios de concretização. O Atol K é apenas um atol, isolado do mundo e, após emergir, é habitado por seres humanos reais, histórico-concretos. O pequeno grupo inicial manifestava um sonho utópico que logo começou a desmoronar quando a população de outras localidades se encaminhou para lá. A recusa da sociedade moderna expressa na ação dos quatro personagens foi superada pela população que aportou na ilha e levando consigo a mentalidade dominante com o conjunto de valores, idéias e sentimentos típicos da sociedade capitalista, bem como seus interesses, tal como o da exploração do urânio.
    A sociedade circundante fez Crusoelândia se corromper e nesse processo se mostra que a transformação social, a autogestão social ou o comunismo, não pode ser uma ilha isolada, pois esta pode ser reintegrada na sociedade capitalista a qualquer momento, pois esta a cerca com o mercado, o Estado, a mentalidade e cultura dominantes, etc. A utopia é uma necessidade humana enquanto os seres humanos viverem numa sociedade repressiva, mas ela tem que ser totalizante, ou seja, abarcar o conjunto das relações sociais e da sociedade, além das fronteiras dos limitados Estados-Nações, se tornando mundial (Decouflé, 1976).
    Por fim, podemos dizer que o filme de Léo Joannon é uma expressão utópica que revela a negação do presente indesejado e afirmação de um futuro desejável. Como todo filme, ele é um fenômeno social que manifesta o social (Viana, 2009) e por isso manifesta também os sonhos e desejos dos seres humanos. Mas, parafraseando Hegel, não basta desejar, é preciso saber desejar. Saber desejar a utopia é justamente transformar a utopia abstrata em utopia concreta. Porém, sempre as utopias abstratas antecedem as utopias concretas, pois estas últimas não nascem da cabeça dos intelectuais ou de aventureiros, e sim das lutas sociais concretas das classes exploradas e grupos oprimidos e é por isso, por possuir agentes reais e concretos, que ela é realizável. O filme de Léo Joannon mostra um momento necessário, o da utopia abstrata, e suas limitações, ponto de partida para se passar para a utopia concreta e por isso é uma obra de grande valor.

    Referências
    Bloch, Ernst. O Princípio Esperança. Rio de Janeiro, Contraponto, 2005.
    Campanella, T. A Cidade do Sol. Rio de Janeiro, Ediouro, 1984.
    Decouflé, André. Sociologia das Revoluções. Lisboa, Europa-América, 1976.
    Mannheim, Karl. Ideologia e Utopia. 4ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.
    Marx, Karl e Engels, Friedrich. A Sagrada Família. Lisboa, Presença, 1979.
    Marx, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo, Global, 1986.
    Morus, Thomas. A Utopia. Rio de Janeiro, Ediouro, 1980.
    Viana, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre, Zouk, 2007.
    __________Como Assistir um Filme? Rio de Janeiro, Corifeu, 2009.



    [1] Aqui ucronia tem um significado diferente do que muitos atribuem, sendo o exato oposto da utopia. A utopia é o não-lugar que nega a sociedade existente e propõe uma nova sociedade, enquanto que a ucronia apresenta o futuro, o “novo” como sombrio, seja por ser uma metáfora da sociedade atual, seja por prever que a sociedade atual irá promover algo pior do que ela mesma (Viana, 2009).
    [2] O filme também ficou conhecido como “Atoll K” (título utilizado na Itália) e “Ilha de Robinson Crusoé” e, no Brasil, como “Ilha da Bagunça” e “O Paraíso dos Malandros”, entre outros nomes.
    [3] Claro que isto constitui uma contradição, pois se no início se coloca “poucas leis” e a constituição é formada por leis, então o item “sem leis” entra em contradição com tudo que estava colocado anteriormente. De qualquer forma, ao colocar “sem leis” e “sem dinheiro”, há uma recusa simultânea do capital e do Estado, ou seja, embora de forma não refletida e aprofundada.

    O artigo acima é sobre o filme Utopia, Léo Joannon (França/Itália, 1951).