EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA
Nildo Viana*
O filme Eden
(Ron Howard, EUA, 2025) é uma curiosa obra cinematográfica. Muitos a
qualificariam como uma “utopia”. O nosso objetivo aqui será realizar um breve
comentário sobre este filme visando discutir o suposto caráter “utópico” que é
atribuído a ele.
Uma sinopse breve do
filme assim o apresentaria. “O filme retrata um episódio pouco explorado da
história europeia da década de 1930. Um casal alemão decide se estabelecer na
ilha de Floreana, nas Ilhas Galápagos, renunciando aos valores que julgavam
estar corroendo a humanidade, com o intuito de construir uma existência
alternativa em meio à natureza selvagem. A obra aborda temas como a
sobrevivência, o mistério e as complexas dinâmicas humanas diante das
adversidades, à medida que o ‘ideal utópico’ dá lugar à desconfiança, à
violência e ao colapso moral. A natureza humana é mais forte do que a utopia”.
Porém, esses
lugares-comuns são falsos e não expressam o real significado do filme. O filme
se baseia numa história real, que foi a do casal alemão Friedrich Ritter e Dore
Strauch. Eles moravam em Berlim, e em 1929 abandonam a Alemanha para ir para
uma ilha distante. A razão da aventura é que Ritter era um crítico da sociedade
moderna, um adepto da filosofia nietzschiana, considerado que o mundo moderno
estava em decadência por causa dos valores corrompidos que o dominam. O clima
pessimista de 1929 (e que foi retratado em várias obras, a começar pelo livro
de Oswaldo Spengler, A Decadência do Ocidente)[1].
Ritter queria voltar, assim, ao mundo natural, no qual a “luta pela vida” e a “vontade
de poder” se manifestasse integralmente.
O filme reproduz a
vida do casal na Ilha Floreana, na qual eles viviam e ele escrevia seu livro e cartas
para os jornais europeus. A trama começa quando um outro casal chega na ilha a
partir da leitura das cartas de Ritter, com o objetivo de se instalar e
contribuir com a formação do “novo modo de vida”. Porém, o novo casal é mal-recebido
pelos moradores originários (o casal alemão, pois a ilha era desabitada). Ritter
os colocam num lugar inadequado para sua sobrevivência e longe dele e sua
esposa. Logo depois chega uma suposta “Baronesa”, chamada Eloise von Wagner, que
vem acompanhada de empregados/amantes e objetiva construir um hotel, denominado
“Hotel Hacienda Paradiso”. O conflito original entre os dois primeiros casais,
que não era muito forte devido ao fato de que o segundo casal era mais
amistoso, acaba sendo atingido por essa chegada, pois a Baronesa acaba
incomodando a ambos e gera conflitos entre eles como forma de conseguir atingir
seus objetivos. O resto do filme é apenas a expressão da tragédia e de
conflitos violentos.
É nesse contexto que
emerge a interpretação segundo a qual a ida para a ilha tinha a intenção de
realizar uma utopia e que o fracasso desse projeto ocorreu por causa da “natureza
humana”. Assim, a ilha não seria a responsável pelo fracasso, mas a própria
essência humana. Nesse sentido, o filme seria considerado “utópico”, mas
realista, e isso explicaria o fracasso.
Essa interpretação é
totalmente equivocada. Em primeiro lugar, nem a ilha, nem o filme, eram “utópicos”.
Claro que o entendimento disso pressupõe a compreensão do que é utopia. Tal
como colocamos em outro lugar[2],
“a utopia significa uma negação da sociedade presente, uma crítica dela, e, simultaneamente,
um projeto de uma nova sociedade”[3].
Nesse caso, basta perceber que Ritter não é um crítico do capitalismo e sim de
aspectos do capitalismo. A sua inspiração em Nietzsche demonstra isso. O
comportamento de Ritter e sua esposa em relação ao casal Margret também
demonstra que não estão interessados em uma sociedade radicalmente diferente. O
casal Magret é o que mais se aproximaria de uma concepção utópica. Porém, a
ideia original não foi deles e sim do casal alemão que chegou pioneiramente na
ilha. A Baronesa, por sua vez, possui apenas um projeto capitalista e comercial
visando explorar a ilha no sentido financeiro. Em síntese, os personagens
principais não são utópicos e os demais habitantes da ilha tem um casal que tem
proximidade com um ideal utópico e uma baronesa e seus serviçais que é antagônico
a qualquer utopia.
Sendo assim, o filme não
traz uma utopia. O que ele traz então? Uma pseudoutopia burguesa inspirada em Nietzsche,
ou seja, que vem apenas para defender o imoralismo do “super-homem”, “além do
bem e do mal”. Uma pseudoutopia é “uma falsa utopia. A razão disso se encontra no fato de apontar
para uma sociedade do futuro que seria melhor, mas estruturalmente é a mesma sociedade,
na qual as “melhorias” podem ser duvidosas, problemáticas, pequenas alterações,
etc.”[4].
Em segundo lugar, a
contraposição que alguns assistentes para explicar o fracasso da experiência
pseudoutópica é que isso ocorre não por causa da ilha e sim devido à “natureza
humana”. No fundo, essa ideia de “natureza humana” é ideológica. Marx já
criticava autores como Jeremy Bentham[5],
que projetava o indivíduo de sua época e sociedade como sendo a “natureza
humana”. Os indivíduos que chegaram na ilha de Floreana não eram expressão da “natureza
humana” e sim de seres humanos socializados e formados pela sociabilidade
capitalista e mentalidade burguesa. Alguns, com maior intensidade, como a baronesa,
outros, com menor intensidade, como o casal Margret. A inspiração de Ritter em Nietzche,
o “filósofo do imperialismo” e um dos grandes legitimadores do capitalismo é
suficiente para se demonstrar isso[6].
Nem sequer Rousseau era a inspiração. Muito menos Marx ou qualquer autor
anticapitalista. O egoísmo de Ritter e da Baronesa mostra o seu vínculo com os
sentimentos antipáticos gerados pelo capitalismo, bem como seus valores
(possessividade, individualismo, etc.).
O que derrota a
experiência é o mesmo dilema que o mundo enfrenta atualmente e nada tem a ver
com “natureza humana” e sim com sua recusa: conflitos de interesses,
competição, ambição, elementos característicos do capitalismo. Os indivíduos que
chegam na ilha não são vazios, são portadores de sentimentos, concepções e
valores, que, por sua vez, expressam a mentalidade burguesa. Logo, o que gerou
o fracasso da experiência pseudoutópica não foi a natureza humana e sim a
mentalidade burguesa, que, com a sua capacidade mobilizadora, incentivou o desenvolvimento
de uma sociabilidade capitalista[7]
que era apenas embrionária[8]
e depois vai se tornando o fundamento das relações sociais locais.
O processo de instauração
da utopia autogestionária não se realiza através de “ilhas isoladas” e pressupõem
um conjunto de lutas sociais que geram transformação das relações sociais e, simultaneamente,
da mentalidade, que é o processo revolucionário. Nada disso emerge na trama do
filme (e nem no caso real que foi a sua fonte inspiradora). Por conseguinte,
Eden é um filme pseudoutópico e o fracasso da pseudoutopia é derivada da
mentalidade burguesa. Isso demonstra que assim como o Rei Midas, tudo que a
mentalidade burguesa toca se transforma em coisa, promovendo a coisificação do
mundo e gerando sua desumanização. O filme é interessante justamente por
alertar a necessidade de se entender a mentalidade burguesa e perceber que o
processo de transformação radical e total da sociedade pressupõe uma nova
mentalidade e que é preciso superar a naturalização do indivíduo da sociedade
capitalista e sua projeção como “natureza humana”.
* Sociólogo,
filósofo, especialista em Psicologia Social e Psicanálise. Autor de diversos livros,
entre os quais “Como Assistir um Filme”; “Cinema
e Mensagem”; “A Concepção Materialista da História do Cinema”.
[1] Sobre o clima e obras pessimistas nesse
período, cf. VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas.
Curitiba: CRV, 2018.
[2] VIANA, Nildo. Quem tem Medo da Utopia? Brasil
Revolucionário, ano 2, n. 7, dezembro de 1990.
[3] BERNSTEIN, Serge. Utopia e Ucronia: Concepções
da Sociedade Futura. Revista Sociologia em Rede, [S. l.],
v. 6, n. 06, 2023. Disponível em:
https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1182. Acesso em: 2 maio. 2026.
[4] BERNSTEIN, Serge. Ob. Cit., p. 5.
[5] Cf. MARX, Karl. O
Capital. 3ª edição, vol. 1, São Paulo: Nova Cultural, 1988.
[6] VIANA, Nildo. Nietzsche, Vontade de Potência e Irracionalismo. Revista
Fragmentos de Cultura - Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas,
Goiânia, Brasil, v. 20, n. 5, p. 569–589, 2011. DOI: 10.18224/frag.v20i5.1637. Disponível
em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/fragmentos/article/vi-ew/1637.
Acesso em: 2 maio. 2026.
[7] Sobre os conceitos de
mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, cf. VIANA, Nildo. Universo
Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo: Escuta, 2008.
[8] No início havia a “divisão de propriedade” dos dois casais, competição
entre eles, etc., mas a chegada da baronesa e suas relações com seus serviçais
– mercantilização, por exemplo – e sua ação de apropriação, exercício de
violência, etc., aprofundou seu desenvolvimento.

