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Informe e Crítica

2 de mai. de 2026

EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 


EDEN: A PSEUDOUTOPIA BURGUESA

 

Nildo Viana*

 

O filme Eden (Ron Howard, EUA, 2025) é uma curiosa obra cinematográfica. Muitos a qualificariam como uma “utopia”. O nosso objetivo aqui será realizar um breve comentário sobre este filme visando discutir o suposto caráter “utópico” que é atribuído a ele.

Uma sinopse breve do filme assim o apresentaria. “O filme retrata um episódio pouco explorado da história europeia da década de 1930. Um casal alemão decide se estabelecer na ilha de Floreana, nas Ilhas Galápagos, renunciando aos valores que julgavam estar corroendo a humanidade, com o intuito de construir uma existência alternativa em meio à natureza selvagem. A obra aborda temas como a sobrevivência, o mistério e as complexas dinâmicas humanas diante das adversidades, à medida que o ‘ideal utópico’ dá lugar à desconfiança, à violência e ao colapso moral. A natureza humana é mais forte do que a utopia”.

Porém, esses lugares-comuns são falsos e não expressam o real significado do filme. O filme se baseia numa história real, que foi a do casal alemão Friedrich Ritter e Dore Strauch. Eles moravam em Berlim, e em 1929 abandonam a Alemanha para ir para uma ilha distante. A razão da aventura é que Ritter era um crítico da sociedade moderna, um adepto da filosofia nietzschiana, considerado que o mundo moderno estava em decadência por causa dos valores corrompidos que o dominam. O clima pessimista de 1929 (e que foi retratado em várias obras, a começar pelo livro de Oswaldo Spengler, A Decadência do Ocidente)[1]. Ritter queria voltar, assim, ao mundo natural, no qual a “luta pela vida” e a “vontade de poder” se manifestasse integralmente.



O filme reproduz a vida do casal na Ilha Floreana, na qual eles viviam e ele escrevia seu livro e cartas para os jornais europeus. A trama começa quando um outro casal chega na ilha a partir da leitura das cartas de Ritter, com o objetivo de se instalar e contribuir com a formação do “novo modo de vida”. Porém, o novo casal é mal-recebido pelos moradores originários (o casal alemão, pois a ilha era desabitada). Ritter os colocam num lugar inadequado para sua sobrevivência e longe dele e sua esposa. Logo depois chega uma suposta “Baronesa”, chamada Eloise von Wagner, que vem acompanhada de empregados/amantes e objetiva construir um hotel, denominado “Hotel Hacienda Paradiso”. O conflito original entre os dois primeiros casais, que não era muito forte devido ao fato de que o segundo casal era mais amistoso, acaba sendo atingido por essa chegada, pois a Baronesa acaba incomodando a ambos e gera conflitos entre eles como forma de conseguir atingir seus objetivos. O resto do filme é apenas a expressão da tragédia e de conflitos violentos.

É nesse contexto que emerge a interpretação segundo a qual a ida para a ilha tinha a intenção de realizar uma utopia e que o fracasso desse projeto ocorreu por causa da “natureza humana”. Assim, a ilha não seria a responsável pelo fracasso, mas a própria essência humana. Nesse sentido, o filme seria considerado “utópico”, mas realista, e isso explicaria o fracasso.

Essa interpretação é totalmente equivocada. Em primeiro lugar, nem a ilha, nem o filme, eram “utópicos”. Claro que o entendimento disso pressupõe a compreensão do que é utopia. Tal como colocamos em outro lugar[2], “a utopia significa uma negação da sociedade presente, uma crítica dela, e, simultaneamente, um projeto de uma nova sociedade”[3]. Nesse caso, basta perceber que Ritter não é um crítico do capitalismo e sim de aspectos do capitalismo. A sua inspiração em Nietzsche demonstra isso. O comportamento de Ritter e sua esposa em relação ao casal Margret também demonstra que não estão interessados em uma sociedade radicalmente diferente. O casal Magret é o que mais se aproximaria de uma concepção utópica. Porém, a ideia original não foi deles e sim do casal alemão que chegou pioneiramente na ilha. A Baronesa, por sua vez, possui apenas um projeto capitalista e comercial visando explorar a ilha no sentido financeiro. Em síntese, os personagens principais não são utópicos e os demais habitantes da ilha tem um casal que tem proximidade com um ideal utópico e uma baronesa e seus serviçais que é antagônico a qualquer utopia.

Sendo assim, o filme não traz uma utopia. O que ele traz então? Uma pseudoutopia burguesa inspirada em Nietzsche, ou seja, que vem apenas para defender o imoralismo do “super-homem”, “além do bem e do mal”. Uma pseudoutopia é “uma falsa utopia.  A razão disso se encontra no fato de apontar para uma sociedade do futuro que seria melhor, mas estruturalmente é a mesma sociedade, na qual as “melhorias” podem ser duvidosas, problemáticas, pequenas alterações, etc.”[4].

Em segundo lugar, a contraposição que alguns assistentes para explicar o fracasso da experiência pseudoutópica é que isso ocorre não por causa da ilha e sim devido à “natureza humana”. No fundo, essa ideia de “natureza humana” é ideológica. Marx já criticava autores como Jeremy Bentham[5], que projetava o indivíduo de sua época e sociedade como sendo a “natureza humana”. Os indivíduos que chegaram na ilha de Floreana não eram expressão da “natureza humana” e sim de seres humanos socializados e formados pela sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa. Alguns, com maior intensidade, como a baronesa, outros, com menor intensidade, como o casal Margret. A inspiração de Ritter em Nietzche, o “filósofo do imperialismo” e um dos grandes legitimadores do capitalismo é suficiente para se demonstrar isso[6]. Nem sequer Rousseau era a inspiração. Muito menos Marx ou qualquer autor anticapitalista. O egoísmo de Ritter e da Baronesa mostra o seu vínculo com os sentimentos antipáticos gerados pelo capitalismo, bem como seus valores (possessividade, individualismo, etc.).

O que derrota a experiência é o mesmo dilema que o mundo enfrenta atualmente e nada tem a ver com “natureza humana” e sim com sua recusa: conflitos de interesses, competição, ambição, elementos característicos do capitalismo. Os indivíduos que chegam na ilha não são vazios, são portadores de sentimentos, concepções e valores, que, por sua vez, expressam a mentalidade burguesa. Logo, o que gerou o fracasso da experiência pseudoutópica não foi a natureza humana e sim a mentalidade burguesa, que, com a sua capacidade mobilizadora, incentivou o desenvolvimento de uma sociabilidade capitalista[7] que era apenas embrionária[8] e depois vai se tornando o fundamento das relações sociais locais.

O processo de instauração da utopia autogestionária não se realiza através de “ilhas isoladas” e pressupõem um conjunto de lutas sociais que geram transformação das relações sociais e, simultaneamente, da mentalidade, que é o processo revolucionário. Nada disso emerge na trama do filme (e nem no caso real que foi a sua fonte inspiradora). Por conseguinte, Eden é um filme pseudoutópico e o fracasso da pseudoutopia é derivada da mentalidade burguesa. Isso demonstra que assim como o Rei Midas, tudo que a mentalidade burguesa toca se transforma em coisa, promovendo a coisificação do mundo e gerando sua desumanização. O filme é interessante justamente por alertar a necessidade de se entender a mentalidade burguesa e perceber que o processo de transformação radical e total da sociedade pressupõe uma nova mentalidade e que é preciso superar a naturalização do indivíduo da sociedade capitalista e sua projeção como “natureza humana”.

 

 



* Sociólogo, filósofo, especialista em Psicologia Social e Psicanálise. Autor de diversos livros, entre os quais “Como Assistir um Filme”; “Cinema e Mensagem”; “A Concepção Materialista da História do Cinema”.

[1] Sobre o clima e obras pessimistas nesse período, cf. VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2018.

[2] VIANA, Nildo. Quem tem Medo da Utopia? Brasil Revolucionário, ano 2, n. 7, dezembro de 1990.

[3] BERNSTEIN, Serge. Utopia e Ucronia: Concepções da Sociedade Futura. Revista Sociologia em Rede[S. l.], v. 6, n. 06, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1182. Acesso em: 2 maio. 2026.

[4] BERNSTEIN, Serge. Ob. Cit., p. 5.

[5] Cf. MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, vol. 1, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

[6] VIANA, Nildo. Nietzsche, Vontade de Potência e Irracionalismo. Revista Fragmentos de Cultura - Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, Goiânia, Brasil, v. 20, n. 5, p. 569–589, 2011. DOI: 10.18224/frag.v20i5.1637. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/fragmentos/article/vi-ew/1637. Acesso em: 2 maio. 2026.

[7] Sobre os conceitos de mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, cf. VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo: Escuta, 2008.

[8] No início havia a “divisão de propriedade” dos dois casais, competição entre eles, etc., mas a chegada da baronesa e suas relações com seus serviçais – mercantilização, por exemplo – e sua ação de apropriação, exercício de violência, etc., aprofundou seu desenvolvimento.